Torcedor
Ramalhino, por onde anda você?
O
E. C. Santo André já nasceu destinado a ser vencedor.
E equipes vencedoras costumam atrair torcedores. Já em
seu primeiro e tumultuado ano no futebol profissional, o azul
e branco decidiu a então primeira Divisão contra
o Catanduvense. Naquele distante 1975, o Bruno Daniel resumia-se
ao setor de cadeiras cobertas, mas mesmo assim 8 mil torcedores
ocuparam todos os lugares possíveis e imagináveis
do Estádio, até mesmo transformando em gerais
as rampas atrás das linhas de fundo.
Poucos anos depois, em 1978, o Ramalhão já levava
ao Estádio Municipal públicos dignos de divisão
principal, embora ainda disputasse a Intermediária. Os
memoráveis duelos contra Inter de Limeira, Aliança,
Saad e Pinhalense arrastavam multidões de 15 a 18 mil
torcedores, lotando a recém inaugurada arquibancada,
o que dava ao Santo André uma das maiores médias
de público do interior paulista.
Em 1979, levamos ao Pacaembu o maior público até
então registrado para uma partida que não envolvia
os "times grandes", mais de 15 mil torcedores na partida
contra a Esportiva de Guaratinguetá, pelas finais da
Intermediária. E em 1981 lotamos o Parque Antártica
nas finais contra Paulista e XV de Piracicaba, alcançando
afinal o acesso à Divisão Especial.
Hoje em dia, o quadro é completamente diferente. Mesmo
participando de campeonatos de maior prestígio, dificilmente
conseguimos levar ao Bruno Daniel mais que 3 mil pessoas, a
ponto de a administração do estádio nem
mesmo abrir a arquibancada na maioria das partidas, já
que o setor de cadeiras é mais que suficiente para abrigar
todo o público.
É hora, então, de perguntarmos: que fim levou
a torcida ramalhina?
Não existe uma resposta simples para essa pergunta. O
mundo hoje é bem diferente de anos atrás: há
mais opções de lazer, o conforto nos estádios
deixa a desejar, o nível de renda caiu, há o problema
da falta de segurança, as gangues fantasiadas de "torcida
organizada", a concorrência da TV, etc. Mas devemos
considerar a possibilidade de que aquela grande massa, que lotava
o estádio há 25 ou 30 anos, simplesmente não
exista mais: trocou de camisa, mudou-se de cidade, ou simplesmente
envelheceu e não foi substituída pela nova geração,
que optou por torcer pelos "grandes" clubes que vêem
toda semana na TV.
Reverter uma tal situação não é
fácil. Exigiria um grande trabalho de promoção
e marketing, que a atual direção do clube não
parece disposta a realizar. Mas eu me recuso a crer que todos
aqueles torcedores que aprenderam a admirar o Ramalhão
nos anos 70 e 80 já tenham morrido, ou que não
tenham sido capazes de transmitir a seus filhos toda a admiração
que sentiam pelo time que ostenta as cores e o brasão
da cidade. Acredito piamente que essa torcida ainda existe.
Apenas está oculta, envergonhada ou sem coragem de reaparecer
e manifestar seu amor por um time "pequeno" e ser
alvo de gozações dos amigos corintianos, sãopaulinos,
santistas e palmeirenses...
Mas não existe motivo algum para isso! O Ramalhão
continua sendo, sim, um time vencedor. Dentro de mais algumas
semanas estrearemos na Libertadores, o sonho de consumo de 10
entre 10 clubes brasileiros. Estamos a um passo da elite do
futebol brasileiro, aonde em breve chegaremos, com certeza.
E conquistamos a Copa do Brasil, superando tudo e todos os que
não acreditavam em nosso êxito.
Vamos, torcedor ramalhino, mostre a sua cara, vista a camisa
do time e saia à rua, demonstre seu "orgulho de
ser andreense", como diz a faixa da torcida. E vá
ao Bruno Daniel incentivar os nossos atletas, que batalharam
muito e fizeram por merecer o lugar onde estão hoje.
Você irá se surpreender ao descobrir que nosso
futebol é tão bom ou melhor que o dos times "grandes"
que protagonizam partidas de qualidade duvidosa na telinha.
Falando nisso, se você é - ou se julga - torcedor
de um desses "grandes", não faz mal. Vá
ao Brunão assim mesmo. Talvez assim você descubra
que lugar de torcedor é no estádio e não
diante da TV, pegue gosto e vire assíduo, e acabe descobrindo
que gosta mesmo é do Ramalhão. Não se preocupe:
isso acontece com quase todos.
Carlos
Silva
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Carlos
Silva é funcionário público
e Ramalhino desde 01/10/1978
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