O
Velho Borracha
Quem
freqüentou o estádio Bruno Daniel entre as décadas
de 70 e 80 do século passado deve lembrar-se desse personagem.
Seu nome ninguém sabia ao certo, podia ser Antonio, João,
Agenor, não importava: ali, na arquibancada do Brunão,
ele era simplesmente o Borracha.
Sempre que havia jogo do Santo André no Bruno Daniel,
ali estava aquele senhor, de presumíveis 60 anos, sempre
vestindo um terno imaculadamente branco (que contrastava com
sua pele de um negro retinto), gravata borboleta, lenço
na lapela e, nos jogos à tarde com muito sol, um chapéu
panamá igualmente branco. Não era alto, o Borracha;
um metro e sessenta, não muito mais que isso. O rosto
vincado de rugas, um vasto bigode e a voz meio enrolada completavam
a figura.
Não dava para imaginar os jogos do Ramalhão sem
o velho Borracha na arquibancada, sempre perto da "bateria",
pulando como criança, vibrando e batendo palmas, puxando
o coro de "É Santo André, oba!"; um
autêntico e incansável animador de torcida. Nos
outros dias da semana, podia ser visto andando pela Oliveira
Lima, vestindo um figurino bem diferente: um agasalho com a
marca de conhecida loja de artigos esportivos do centro da cidade.
Esse trabalho de "garoto propaganda" lhe rendia alguns
trocados, que somados à minguada aposentadoria lhe permitiam
ir levando a vida.
Por muitos anos, Borracha viveu um caso de amor com o Santo
André. Além de ir a todos os jogos no Bruno Daniel,
sempre que possível juntava-se às caravanas da
torcida para as partidas fora de casa. Cansou de apanhar por
esse interior afora (o "cacete" que levou em São
José dos Campos em 1979, quando entrou em campo com uma
bandeira do Ramalhão, foi histórico). Para muita
gente, ele era o verdadeiro torcedor símbolo do Santo
André.
Mas, como num "dRamalhão" mexicano, algo aconteceu
para atrapalhar esse romance. Políticos cartolas de certa
cidade vizinha, fartos de ver o estádio às moscas
nas partidas de "sua" equipe enquanto os jogos do
Ramalhão arrebentavam de tanta gente, fizeram ao Borracha
uma proposta irrecusável: casa própria e um generoso
salário mensal, em troca de mudar de cidade e de time.
A proposta balançou Borracha, que, fala-se, morava em
um barraco no Jardim Irene. Humilde ou ingênuo demais
para perceber a armadilha, o pobre homem acabou aceitando a
proposta indecorosa. O resultado não poderia ser outro:
a palavra não foi cumprida, e Borracha, ressabiado, sem
salário e sem casa, voltou a freqüentar o Bruno
Daniel. Mas já não era a mesma coisa. Muitos nunca
lhe perdoaram a "traição". Até
hoje, as opiniões sobre o Borracha entre os membros de
nossa mail list são divergentes: para alguns ele foi
um exemplo de como torcer com alegria e civilidade, para outros
não passou de um mercenário simplório.
Com o passar do tempo, sua presença no estádio
foi rareando, até afinal sumir de vez. Muitos boatos
sobre ele passaram a circular: estaria doente, ou se convertera
a uma igreja evangélica e virara pastor. Há algum
tempo, tivemos na lista a informação que o Velho
Borracha já teria falecido.
Um dos objetivos dos Ramalhonautas é recuperar o passado
do Ramalhão, e um personagem tão rico e tão
ligado à História do clube merece ser mais bem
conhecido. Se você, amigo internauta, souber mais alguma
coisa sobre ele ou tiver mais alguma história interessante,
mande-nos um e-mail. Ajude-nos a resgatar o Velho Borracha para
a posteridade
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Carlos
Silva é funcionário público
e Ramalhino desde 01/10/1978
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