Retrô 2005
O
ano de 2005 deveria ter começado com expectativa e otimismo.
Afinal, o Santo André preparava-se para sua estréia
internacional na Copa Libertadores, o mais importante campeonato
continental. Mas dois fatos ocorridos ainda no final do ano
anterior deixaram a torcida com a pulga atrás da orelha:
primeiro, a desistência de Hélio dos Anjos, que
contratado para montar o time que disputaria o Paulistão
e a Libertadores, simplesmente demitiu-se após poucos
dias de trabalho, dando declarações enigmáticas
sobre as causas de sua saída; e, logo em seguida, um
duro golpe na auto-estima da torcida ramalhina: a contratação
de Luiz Carlos Ferreira como novo técnico. A chegada
do treinador, experiente mas sem o perfil esperado para a temporada
que seria a mais importante da história do Ramalhão,
foi recebida por boa parte da torcida como verdadeira ofensa,
diante das circunstâncias da saída de LCF em sua
última passagem pelo clube.
Em
11 de janeiro, entrava definitivamente no ar o sítio
Ramalhonautas, enquanto o time sub-21 sucumbia nas oitavas-de-final
da Copinha, diante do Grêmio. Campanha insatisfatória,
mas que revelou pelo menos um atleta de qualidade para o time
principal: o zagueiro Diego Padilha.
Começou
o Paulistão e o time, já com alguns jogadores
experientes como Romerito, Dedimar e Sandro Gaúcho mesclado
com jovens como Diego, Leandrinho, Richarlyson e Rafinha, até
que teve um bom começo, mas a irregularidade não
permitia ao time adquirir a confiança necessária.
Resultados inesperados em casa, como permitir a virada do União
de Araras após estar vencendo por 2 x 0, colocavam em
dúvida a real capacidade da equipe e, principalmente,
de seu treinador. Antes da estréia na Libertadores, ainda
chegariam os jogadores Fernando e Rodrigão.
Chegou,
enfim, o aguardado 2 de março, dia da primeira partida
oficial do Ramalhão fora do país. A derrota para
o Deportivo Táchira por 1 x 0 acabou debitada à
inexperiência do elenco e ao nervosismo da estréia.
Mas esse mau resultado acabaria comprometendo toda a campanha
do clube na Libertadores. Logo em seguida, o empate em casa
com o Cerro Porteño por 2 x 2 deixava o Ramalhão
na lanterna do grupo.
O
clima já não era bom e a situação
do técnico LCF tornava-se insustentável. Por fim,
a derrota no Bruno Daniel, pelo Paulistão, para o MSI/Corinthians
de Carlitos Tevez e a infeliz declaração do treinador
de que perder para time grande é normal puseram
fim à desastrosa sétima passagem de LCF pelo clube
ramalhino. Em seu lugar, foi efetivado o auxiliar técnico
Sérgio Soares, que contava com o apoio da torcida.
E,
de fato, com Soares no comando o time melhorou seu desempenho.
Reação na Libertadores, com o empate contra o
Palmeiras no Parque Antártica e vitória sobre
o mesmo adversário no Bruno Daniel, mas a amarga derrota
em Assunción para o Cerro deixava o time na dependência
de outros resultados. No final, de nada valeu o massacre de
6 x 0 contra o Táchira, pois o previsível empate
entre Palmeiras e Cerro classificou a ambos. O Ramalhão
despedia-se da Libertadores sem ter passado da primeira fase,
um resultado bem aquém do que a torcida ramalhina esperava.
Em
compensação, no Campeonato Paulista o time encerrava
sua campanha em 4° lugar, garantindo classificação
para a Copa do Brasil 2006. E, o mais importante: à frente
do São Caetano. Enfim, uma alegria para a torcida. Com
isso, o time estreou embalado no Brasileiro da Série
B, com vitórias sobre CRB, Marília e Sport, disparando
na liderança.
Mas
era uma campanha meio irreal, pois o elenco ainda era o da Libertadores.
E o inevitável desmanche começou: Leandrinho,
Romerito, Fernando e outros deixaram o Ramalhão em busca
de maiores salários. Os reforços começaram
a chegar, porém de qualidade diversa, para dizer o mínimo,
em relação aos atletas substituídos. A
produção do time caiu um pouco, mas nada que,
naquele momento, prejudicasse a campanha.
Mas
não seria o Santo André, se não acontecesse
logo algo catastrófico.
E
uma bomba de efeito devastador atingiu o time no final de maio:
o meia Richarlyson abandonou o elenco e, orientado por seus
empresários, ingressou na Justiça
Trabalhista contra o clube, requerendo a rescisão de
seu contrato e o recebimento da multa contratual, sob a alegação
que o clube não depositara um mês do FGTS. Após
obter na Justiça uma liminar, o atleta colocou-se em
leilão na mídia: chegou a posar com a camisa do
Palmeiras, mas acabou acertando com o São Paulo.
O
fato provocou um abatimento perceptível do elenco ramalhino
e deixou a torcida enfurecida, a ponto da TUDA promover o enterro
do atleta em um caixão cor-de-rosa de gosto duvidoso.
O protesto aparentemente não foi bem recebido por uma
parte do elenco. Mas, bem maior que a raiva da torcida, foi
a decepção com o jogador, que era um de seus ídolos
e tinha toda uma história dentro do Santo André
(foi um dos campeões da Copinha de 2003), que havia sido
simplesmente jogada no lixo.
O
departamento jurídico do clube agiu depressa e conseguiu
derrubar a liminar nas instâncias superiores, e o jogador
acabou perdendo a ação por faltar à audiência
no Fórum Trabalhista, mas o mal já estava feito.
No final, um acordo entre os clubes permitiu a liberação
de Richarlyson para o São Paulo.
Enquanto
isso, em campo o time não conseguia mais se encontrar.
Os reforços não mostravam desempenho que justificasse
sua vinda, e a falta de entrosamento prejudicava claramente
a equipe. O torcedor, desconfiado, tornou-se menos assíduo
e a média de público nas partidas no Bruno Daniel
estacionou em irrisórios 1.200 pagantes. Com isso o Ramalhão,
que iniciara a Série B de forma arrasadora, terminou
a fase de classificação apenas na 5ª colocação,
caindo no grupo teoricamente mais difícil da segunda
fase. É verdade que em nenhum momento o time deixou a
zona de classificação, o chamado G-8, mas o baixo
rendimento da equipe nas 6 últimas rodadas da primeira
fase não animou o torcedor. Numa tentativa de atrair
mais público, a diretoria do ECSA buscou parcerias por
meio de venda de pacotes de ingressos para empresas, conseguindo
sucesso parcial.
A
segunda fase da Série B acabou sendo uma repetição
do filme que o torcedor ramalhino já havia assistido
na Libertadores, com uma diferença: a derrota inicial
desta vez aconteceu em casa, diante do Grêmio. Logo em
seguida, a derrota acachapante para o Santa Cruz em Recife minou
o pouco de confiança que restava ao torcedor. Duas vitórias
sobre o Avaí trouxeram novo alento ao time, mas o empate
em casa com o Santa foi a pá de cal nas esperanças
ramalhinas, e nem a vitória sobre o Grêmio no Olímpico
mudou a situação. Apesar disso, o Ramalhão
terminou a fase com 10 pontos em 18 possíveis. Esse aproveitamento
(55,55%) poderia ter sido suficiente para a classificação,
não fosse um detalhe: a participação medíocre
do Avaí, que não conseguiu tirar um ponto sequer
dos outros times, e portanto não influiu na classificação
final do grupo. Se desconsiderados os 6 pontos que cada equipe
conquistou sobre os catarinenses, a classificação
efetiva do grupo foi: Santa Cruz, 7 pontos; Grêmio, 6;
e Santo André, 4. Desclassificação e férias
antecipadas para os jogadores, e tristeza para a torcida que
viu, novamente, o ano acabar mais cedo.
Mas
um pequeno consolo ainda viria, graças ao time sub-21,
que, mesmo desacreditado pela campanha fraca no Campeonato Paulista
da categoria, conseguiu o bicampeonato dos Jogos Abertos do
Interior. E, ao final, o treinador Sérgio Soares também
deixou o Santo André, para juntar-se ao projeto futebolístico
do Grupo Pão de Açúcar.
E
o que podemos esperar para 2006? Como já vimos este ano,
muito do que vai acontecer na próxima temporada dependerá
de decisões que serão tomadas ainda em 2005. Mas
tenho uma visão pessoal que, talvez, não corresponda
ao que a maioria dos ramalhinos espera: acho que 2006 vai ser
um ano de entressafra, como 2003.
Está
bem claro (ao menos para mim) que o Santo André não
tem como manter um elenco no mesmo nível competitivo
durante uma temporada inteira, até por imposições
do mercado, em que os atletas celebram contratos de curta duração,
válidos apenas por um campeonato ou nem isso; a cada
torneio encerrado, um desmanche acontece, e nem sempre os substitutos
conseguem manter o mesmo nível. Em 2003, o time atingiu
seu rendimento máximo no final da temporada; em 2004,
no meio (embora o time do 2° semestre também fosse
bom). Este ano, o auge da equipe foi atingido muito cedo, em
abril, e depois disso houve o desmanche e uma queda paulatina
de rendimento.
Penso
que em 2006 devemos centrar esforços no segundo semestre,
na Série B, pois conseguir o acesso torna-se cada vez
mais prioritário. Assim, o time deverá iniciar
a temporada com um elenco formado principalmente por atletas
das categorias de base, e três ou quatro titulares mais
experientes; e entre estes possivelmente não estarão
alguns dos jogadores que atuaram no Ramalhão nos últimos
2 anos, como Sandro Gaúcho, Júlio César
e Dedimar, cujo ciclo com a camisa ramalhina parece estar chegando
ao fim.
Como
esse time irá demorar um pouco para atingir sua melhor
forma, não devemos esperar por boas campanhas no Paulistão
(lutaremos para ficar no meio do bolo) e na Copa do Brasil.
Essa é a única maneira de minimizar os efeitos
de um possível desmanche no final do Paulistão
e entrar na Segundona com uma equipe entrosada .
Espero
que as decisões certas sejam tomadas agora, para termos
o que comemorar em 2006.
Carlos Silva
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Carlos
Silva é funcionário público
e Ramalhino desde 01/10/1978
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