Pontos corridos e metas viáveis
Neste
final de semana, foi dada a partida para os Campeonatos Brasileiros
das Séries A e B. Pela primeira vez, ambos serão
disputados pelo mesmo sistema: pontos corridos em dois turnos.
É a fórmula mais justa possível, que premia
as equipes que mantiverem maior regularidade, mas tem a desvantagem
de resultar num torneio extremamente longo: com o inevitável
intervalo para a Copa do Mundo, ambos durarão quase nove
meses. É uma boa ocasião para tecer algumas considerações
sobre essa forma de disputa, eleita pela CBF e pela mídia
como a ideal para o futebol brasileiro.
Os
torcedores do São Paulo criticam o título do Mundial
de Clubes ganho pelo Corinthians (hoje MSI/Corinthians, já
que o clube alugou sua franquia) dizendo que não
vale porque o Corinthians não foi campeão
sul-americano. Pois os corintianos têm perdido uma boa
chance de revidar, dizendo: então o título de
vocês também não vale, pois o São
Paulo foi campeão mundial sem ter sido campeão
brasileiro! De fato, e por incrível que pareça,
o Tricolor não levanta a taça de Campeão
brasileiro desde 1991, quando, sob o comando de Telê Santana
(hoje gravemente enfermo), conquistou o título ao bater
o Bragantino na final.
Eis
aí uma característica do campeonato em pontos
corridos, que tem passado despercebida de quase toda a mídia.
Quase toda, pois o ótimo sítio Balípodo
(leitura das mais agradáveis para quem realmente gosta
de futebol na internet) já abordou em mais de uma oportunidade
este tema: a prioridade do campeonato nacional, em prejuízo
dos estaduais e regionais, fará com que tenhamos cada
vez menos campeões. Sim, pois com o esvaziamento dos
Estaduais, restaram apenas três títulos relevantes
para os clubes brasileiros: o Brasileiro, a Copa do Brasil e
a Libertadores. A cada ano apenas três torcidas, ou menos,
darão a volta olímpica e festejarão um
título que vale alguma coisa. Quem não tiver capacidade
para brigar por esses títulos logo estará reduzido
à condição de, no máximo, potência
local, ou nem isso. Já é o caso dos times cariocas.
Em alguns casos, a ficha só vai cair quando os torcedores
de alguns clubes se derem conta de que estão na fila
há 30 anos ou mais - ou quando caírem para a Segundona.
Nos
países europeus, que adotam desde sempre os pontos corridos
(embora a fórmula já comece a ser contestada em
alguns países), esse processo de depuração
chegou ao ponto de haver apenas duas ou três equipes,
em cada país, que conquistam 90% dos campeonatos nacionais.
Espanha e Itália são os exemplos clássicos,
mas o mesmo ocorre em todos os países europeus. No Brasil,
ainda estamos longe disso, mas já dá para notar
que alguns clubes já estão mais adaptados à
nova fórmula e devem, com o tempo, obter maior sucesso
nesse tipo de disputa do que outros que ainda têm claras
dificuldades. Com o tempo, e se mantida a fórmula de
pontos corridos, vai acontecer aqui o mesmo processo de elitização
e concentração de títulos nas mãos
de poucos clubes.
Ora,
dirão, essa análise não leva em conta as
características do futebol brasileiro: a rivalidade regional
e o gosto do torcedor por partidas decisivas, e que por esses
motivos os Campeonatos Estaduais sempre existirão. Quem
pensa assim não se dá conta que o esvaziamento
dos estaduais, nos estados do eixo Sul-sudeste,
foi concebido para ser definitivo, e que se ainda há
uma impressão que esses campeonatos não perderam
terreno é porque a mídia os promove, dando-lhes
uma importância muito maior do que de fato têm,
com a intenção de obter audiência e manter
vendagem, num período em que o interesse em futebol seria
muito menor. Muitos clubes da Série A já deixaram
de priorizar os Estaduais, o que explica a ascensão de
equipes pequenas como Ipatinga, Adap, Madureira
etc., fenômeno coincidente com o encolhimento
desses torneios. Vale o alerta de outro ótimo sítio
de esportes, o Trivela, em recente editorial: os Estaduais,
para os times grandes, agora não passam de
torneios de verão, de Ramóns de Carranza,
mera fase de preparação para o Brasileiro, e dizer
o contrário é mentir para o torcedor. É
uma postura bem radical. Mas o tempo mostrará se estão
certos.
Nesse
cenário, qual será o futuro possível para
clubes pequenos ou médios como o Ramalhão? Penso
que tudo é uma questão de planejamento e fixação
de metas viáveis.
Hoje
o sonho de todo torcedor, inclusive nós ramalhinos, é
ver nosso time Campeão Universal, e tendemos a não
aceitar menos que isso. Mas o caminho para a maioria dos clubes
talvez seja moderar suas pretensões e traçar um
objetivo, plausível e em conformidade com suas reais
condições financeiras, de estrutura, disponibilidade
e interesse de parceiros, torcida etc.; e planejar-se para atingir
tal objetivo, só cogitando vôos mais altos quando
- e se - a meta for atingida.
Nesse
rumo, para o Ramalhão a meta viável seria chegar
à Série A e nela permanecer, passando a um novo
padrão de receitas que lhe permita planejar o futuro:
constituir patrimônio, ou formar equipes de ponta. Para
um clube como o Treze da Paraíba ou um Juventus, o objetivo
pode ser chegar à Serie B; para um CRB ou São
Raimundo, permanecer nela. Para um Mauaense, talvez firmar-se
como participante na A-3. E assim por diante.
Isso
parece insatisfatório para o torcedor? Sem dúvida.
Mas o futuro do futebol brasileiro a médio prazo não
reserva muito espaço para quem não torcer para
aquela meia dúzia de times papa-títulos.
E, como costumo dizer, reconhecer plenamente a situação
em que se encontra é o primeiro passo para sair dela;
o segundo passo é querer sair. Talvez nem queiramos dar
esse segundo passo, mas com certeza não será por
ignorância.
Pontos
corridos não são exatamente uma novidade para
o Ramalhão. Conquistamos o acesso em 2001 em um campeonato
com essa regra. O segredo é manter alguma regularidade,
vencendo sempre em casa e buscando o máximo possível
de pontos fora. Uma boa referência é tentar manter
a média inglesa de 2 pontos por jogo. Na minha avaliação,
75 pontos ganhos deverão ser suficientes para conseguir
o acesso, e 44 pontos nos livrarão do risco de rebaixamento.
Vamos lá, Ramalhão, nossa meta é a Série
A!
Carlos Silva
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Carlos
Silva é funcionário público
e Ramalhino desde 01/10/1978
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