Clube empresa não é panacéia
A
publicação mensal Livre Mercado de agosto trouxe uma matéria
de capa que surpreendeu a muitos: o E. C. Santo André, na pessoa de seu
presidente Jairo Livólis, anunciava o desmembramento da gestão do
futebol profissional do clube para uma empresa a ser criada para esse fim. A matéria
de 6 páginas do jornalista Daniel Lima foca a viabilidade do empreendimento
e considera a medida como um grande passo necessário para o crescimento
do time, pois o modelo atual já estaria esgotado.
Para
quem não teve a oportunidade de ler a matéria, destaco abaixo alguns
de seus trechos mais significativos:
"
`Ou caminhamos definitivamente para o clube-empresa, ou teremos cada vez mais
dificuldades para superar obstáculos.' " (frase de Jairo Livólis)
"(...)
O Santo André (...) tem o que interessa aos investidores. A titularidade
na série A (sic) do Campeonato Paulista e uma das 20 vagas na Série
B do Campeonato Brasileiro são vitrines concorridíssimas."
"O
ideal seria (o clube) combinar representatividade popular e regularidade de desempenho."
"O
certo é que não se pretende capilarizar a participação
de investidores. Primeiro porque poderia criar dificuldades ao rápido preenchimento
de vagas. Segundo porque poderia tornar mais complexa a gestão da sociedade
esportiva."
"O
temor de esgarçar-se a tradição do clube numa eventual composição
dominada por voracidade financista existe, mas se dissipará na exata proporção
em que torcedores, conselheiros e dirigentes mais tradicionais participarem como
acionistas."
"O
Esporte Clube Santo André provavelmente não suportará a avalanche
do negócio chamado futebol se não se tornar Santo André Sociedade
Limitada. Resta saber que tipo de sociedade esportiva advirá do que será
apresentado em 10 de agosto. Acionistas com mentalidade de conselheiros deliberativos
serão péssima variante. Acionistas com sede de empreendedorismo
serão grande tacada."
Isso
é o que nos basta, por ora, para comentar o assunto.
Apesar
do otimismo imanente em toda a matéria, entendo que a consolidação
do clube-empresa (que doravante, por economia, chamarei apenas de CE) não
será tarefa tão simples. Já estamos escolados no assunto.
Quando o Ramalhão venceu a Copa do Brasil, o torcedor logo imaginou que
duas grandes filas iriam formar-se na entrada do Poliesportivo: uma, de grandes
empresas interessadas em patrocinar a equipe na Libertadores, e outra de jogadores
dispostos a vestir a camisa do Ramalhão no prestigioso torneio sul-americano.
Nem uma coisa nem outra aconteceu. A Libertadores não se mostrou vitrine
suficiente a atrair investidores e atletas, e não houve o tão esperado
salto qualitativo que seria conseqüência inevitável da capitalização
do título da Copa do Brasil. Passados mais de 2 anos, o Santo André
continua exatamente na mesma condição de antes. Logo, não
temos razão para concordar com o Daniel Lima quando este afirma que a participação
do Ramalhão na Série B poderia atrair investidores (nem se fale
então do esvaziado Paulistão, que perdeu praticamente toda a importância,
reduzido a um pouco expressivo torneio de verão).
Também
não temos nenhuma informação até o momento quanto
à repercussão do projeto de CE junto aos possíveis interessados.
O assunto está cercado do mais rigoroso sigilo, de forma que não
se tem idéia até agora de quantos e quem são os prováveis
sócios, nem mesmo de quantas são as cotas e seu valor. Boatos não
têm faltado, inclusive envolvendo conhecido grupo estrangeiro que, no entanto,
estaria vinculando sua participação ao acesso do Santo André
para a Série A. Falou-se em reforços de qualidade, bancados por
alguma provável parceria já acertada (a vinda do atacante Cléberson,
do Porto, chegou a ser noticiada pela imprensa, e outros nomes circularam no boca-a-boca
pelas cadeiras do Bruno Daniel), mas nada se confirmou.
Também
nada se sabe quanto ao nível de interesse e entusiasmo dos empresários
da região com o CE. Mas o primeiro público alvo deve ser o próprio
Conselho Deliberativo do clube, onde têm assento vários micro e pequenos
empresários e profissionais liberais, que já possuem vínculo
afetivo com o Ramalhão. Também acho que não se deva capilarizar
demais a participação, mas definir cotas de valor muito elevado
afugentaria a maioria dos prováveis investidores. Neste caso, só
a prática irá mostrar qual é o ponto de equilíbrio
ideal.
Mas
a constituição do CE pode ser uma corrida contra o tempo. Embora
a matéria da Livre Mercado tenha passado ao largo desse detalhe, há
um evento a caminho que influirá de forma decisiva na viabilidade do empreendimento:
a eleição para a Presidência do ECSA, no final deste ano.
Não há dúvidas que o desmembramento diminuirá muito
o apelo e o poder do presidente, portanto pode ser de interesse do novo ocupante
do cargo que o CE nunca saia do papel. Para evitar que isso aconteça, Livólis
terá que deixar a presidência do ECSA com o CE legalmente constituído,
com a composição societária completa e todas as alterações
estatutárias já concluídas - e é possível que
não haja mais tempo para tanto.
De
toda forma, nós torcedores temos que ter consciência de uma coisa:
a criação do CE não representa a solução para
todos os problemas do Ramalhão. Não teremos subitamente dinheiro
para montar um timaço e ser campeão de tudo, mesmo porque a prioridade,
no começo, deverá ser a construção do CT. E assumir
a condição de CE não é garantia de sucesso, como prova
a situação atual do... hum... São Caetano (mil perdões,
leitor) e de outros clubes que já adotaram o formato.
Uma
gestão empresarial pode até ser necessária no futebol moderno,
mas, independente de CE ou não, o sucesso de qualquer empreendimento continua
dependendo antes de mais nada de trabalho sério e honesto. Os Ramalhonautas
estão atentos ao assunto e nunca deixarão de cobrar seriedade dos
novos dirigentes do futebol do Ramalhão, seja no formato que for.
Carlos Silva
Comente
esta coluna em nosso fórum
 |
Carlos
Silva é funcionário público e Ramalhino desde 01/10/1978 |