A vida começa aos 40?
No
próximo dia 18 de setembro, o E. C. Santo André
completará 40 anos de existência, iniciada numa
noite chuvosa no antigo Tiro de Guerra na praça Dezoito
do Forte, onde hoje ergue-se o viaduto de mesmo nome.
Um
conhecido ditado diz que "a vida começa aos quarenta".
Essa frase surgiu em tempos mais tranqüilos, quando se
achava que aos 40 anos o homem já haveria cumprido os
chamados encargos da mocidade tais como formar-se, consolidar-se
na carreira, casar-se, criar os filhos e poderia então
relaxar e começar a "desfrutar da vida", dedicando-se
ao descanso, lazer, viagens, etc. Mas o mundo mudou. Em nossa
sociedade moderna, o homem (e, claro, a mulher também)
é obrigado a manter-se produtivo indefinidamente, e a
aposentadoria, antes tida como a recompensa por décadas
de trabalho, agora é vista como um peso para a economia
e cada vez mais protelada e dificultada por seguidas reformas
previdenciárias.
Também
o Ramalhão, ao olhar para as quatro décadas já
vividas, perceberá que está muito longe de poder
descansar sobre os louros das conquistas alcançadas.
Pelo contrário: se o clube chega a esse aniversário
plenamente consolidado no plano recreativo, no futebol vive
um de seus momentos mais dramáticos, a um passo de perder
seu lugar no cenário nacional, tão duramente conseguido.
O
torcedor ramalhino, ao ver seu time de coração
completar 40 anos, tem a impressão que a vida do Ramalhão
sempre foi uma gangorra, com sucessivas fases de êxito
e de ostracismo. As dificuldades iniciais foram gigantescas,
mas veio a consolidação na segunda metade dos
anos 70, já com novo nome e camisa; nos anos 80 o acesso
ao Paulistão, o primeiro Brasileiro, emoções
novas para o torcedor; na década seguinte o descenso,
novas e grandes dificuldades, até o retorno à
elite do Paulistão já no novo século, a
que se seguiram as maiores conquistas do clube até aqui:
o acesso à Serie B do Brasileiro e o título da
Copa do Brasil, com a conseqüente estréia internacional,
na Copa Libertadores. Então veio a sensação
que o ECSA superara definitivamente as dificuldades e iria infalivelmente
assumir seu lugar entre as equipes de ponta do futebol brasileiro.
Pura
ilusão. Da mesma forma que o trabalhador, ao fazer 40
anos, percebe desconsolado que ainda terá que trabalhar
outro tanto antes que possa finalmente, como diz uma certa ministra,
"relaxar e gozar", o Ramalhão também
está a um passo de voltar ao ponto de partida e ter que
começar tudo de novo. O risco de rebaixamento é
real, não é pequeno e a torcida deve preparar-se
para essa possibilidade.
A
modernização prometida com a terceirização
do departamento de futebol ainda não gerou frutos, e
talvez nem tenha tempo de produzí-los se o rebaixamento
para a Série C vier a acontecer; pois, fora da elite
estadual e da Segundona do Brasileiro, várias fontes
de renda serão cortadas ou fortemente reduzidas, entre
elas a recém criada Timemania, afugentando os investidores
e obrigando a uma revisão completa de projetos e pretensões.
Por
essa mesma razão, o aniversário do clube, que
seria a ocasião ideal para uma grande festa, congregando
torcedores, sócios, dirigentes e cotistas (foi até
mesmo criado um logotipo somente para o evento), deverá
passar quase despercebido. Com todos os recursos e esforços
voltados para a dura missão de manter o Ramalhão
na Série B, os planos de festividades foram abortados.
Ocorrerão apenas eventos restritos de caráter
social, dirigidos aos cotistas do Santo André Gestão
Empresarial Desportiva Ltda. (nome oficial do "clube-empresa",
apelido pouco adequado pois não se trata de um clube)
e ao corpo associativo do ECSA, mas nada voltado para o torcedor
ramalhino especificamente.
Ao
torcedor resta trocar a festa pela reflexão. O número
redondo "40 anos" não traz nenhuma revolução
em nossas vidas, nada muda substancialmente apenas por entrarmos
na chamada "maturidade", como se esta significasse
apenas acúmulo de anos: nossas necessidades, objetivos
e cobranças continuarão exatamente os mesmos.
Apenas teremos mais alguns cabelos grisalhos e um corpo sem
o mesmo vigor de outrora. (Acreditem, já entrei nessa
fase há um tempinho.) Com o Ramalhão ocorrerá
a mesma coisa: o clube continuará sua luta sem descanso
pela estabilidade financeira e pela conquista de um lugar de
destaque no cenário do futebol brasileiro, ainda que
num cenário cada vez mais árduo e competitivo.
Desta
vez a sabedoria popular está ultrapassada: a vida não
começa aos quarenta. De fato, no sentido que o ditado
nos apresenta, de uma vida sossegada, sem sobressaltos ou obrigações,
ela nada mais é que uma utopia.
O
melhor presente que posso desejar ao Esporte Clube Santo André,
na ocasião de seus 40 anos, é que daqui a uma
década, no Jubileu de Ouro, possamos olhar para os dez
anos anteriores e perceber que tudo melhorou e que "aqueles
problemas" foram apenas uma fase de transição
completamente superada.
Carlos Silva
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Carlos
Silva é funcionário público e Ramalhino desde 01/10/1978 |