A difícil equação de atrair público
Vencidas
doze rodadas da primeira fase do Campeonato Paulista da Série
A-2, o Ramalhão lidera o campeonato invicto e com folga,
apresentando-se como grande favorito ao acesso à elite
paulista e deixando sua torcida animada e a cidade motivada.
Será mesmo?...
Em
diversas oportunidades os Ramalhonautas vêm apontando
o fato que a média de público no Bruno Daniel
recusa-se a aumentar, patinando na faixa dos 1.200 pagantes,
mesmo com a notável campanha do time ramalhino. Para
a partida contra o Bandeirante de Birigüi, a organizada
Fúria Andreense resolveu arregaçar as mangas e
fez por conta própria um trabalho de divulgação,
com passeatas, panfletagem e faixas no centro comercial, contando
com a motivação da cidade em torno do líder
invicto da A-2. Considerando ainda as promoções
ligadas ao Dia Internacional da Mulher, criou-se a expectativa
de um público de 4 a 5 mil pessoas no último sábado.
No entanto, o borderô oficial da partida apontou pouco
menos de 1.800 pagantes. Fracasso?
Não
entendo assim. A ação de divulgação,
mesmo na base do entusiasmo, conseguiu levar 50% a mais de público
em relação ao que já comparece normalmente
independente de divulgação, e esse público
"novo" tenderá a voltar, se o time mantiver
sua excelente fase. Então podemos considerar bem sucedido
o esforço da torcida organizada, e é bem razoável
supor que uma campanha de divulgação mais bem
planejada possa amealhar platéias ainda maiores, especialmente
na fase final do campeonato.
Mas,
ainda assim, devemos ser conservadores em nossas expectativas.
Como já demonstramos em artigos anteriores, conseguir
aumentar a venda de ingressos para os jogos do Ramalhão
não é uma questão simples. Há diversos
fatores envolvidos, e o primeiro deles (se não o maior)
é a concorrência desleal dos "grandes"
times, agigantados quase sempre artificialmente - pela
mídia, na busca de cada vez mais audiência e faturamento.
E
essa concorrência se mostra ainda mais predatória
quando se trata de buscar novos torcedores: como convencer um
garoto ou adolescente, massacrado todo o tempo pela cobertura
maciça que os meios de comunicação dão
aos times "grandes", a torcer pelo Ramalhão,
um time distante das mídias? Hoje é muito mais
fácil e provável que esse jovem opte por tornar-se
mais um torcedor sãopaulino, ou até do Milan ou
do Manchester United.
Some-se
a isso fatores como o envelhecimento da torcida predominante
do Ramalhão, que "abraçou" o time principalmente
nas décadas de 70 e 80, está hoje na faixa dos
40 anos e não está sendo "reposta" na
quantidade necessária; as condições de
desconforto no deslocamento e nas acomodações
do Estádio; o medo da violência; a decadência
econômica e perda de identidade do Grande ABC; a maior
disponibilidade de outras opções de lazer; etc.,
e temos montada uma equação de solução
dificílima, diante da qual uma equação
diferencial de 2ª ordem é bico (quem conhece Cálculo
sabe o que quero dizer).
Divulgação
é importante, mas é apenas um dos motivadores
que poderão levar o andreense ou morador das cidades
próximas a, se não se tornar ramalhino, pelo menos
deixar de vez em quando a comodidade de seu lar (ou do shopping
center) para prestigiar o time mais tradicional da região.
Há outros instrumentos tão ou mais importantes,
alguns dos quais já disponíveis e outros ainda
por buscar, por exemplo:
-
a existência de uma equipe competitiva, disputando um
campeonato interessante;
-
presença constante na mídia, especialmente TV;
-
ingressos a preços "amigáveis";
-
facilidades na aquisição de ingressos, acesso,
conforto e segurança na praça esportiva;
-
disponibilidade de compra de artigos variados ligados ao time,
e não só camisas oficiais;
-
resgate da importância da presença do torcedor
no estádio (o que significa ir na contramão da
tendência atual de, em nome de uma suposta globalização
do futebol, igualar os times do Brasil aos estrangeiros e transformar
todos os torcedores em meros consumidores de "pay-per-view",
abandonando de vez o "ultrapassado", "exótico"
e "indesejável" hábito de assistir partidas
de futebol in loco);
-
liberação definitiva das arquibancadas do Bruno
Daniel para a torcida ramalhina;
-
campanha de convencimento de fundo emocional, que faça
com que o espectador não apenas queira acompanhar o Ramalhão,
mas tenha prazer em fazê-lo.
Eis
um possível caminho para que se consiga levar platéias
maiores ao Bruno Daniel, se é que se quer realmente isso.
Mas, como a ação da Fúria demonstrou, não
devemos esperar um grande e repentino aumento do movimento nas
bilheterias nos dias de jogos, pois o distanciamento e alheamento
da cidade em relação ao Ramalhão nos últimos
anos são uma realidade de difícil reversão.
Se há 30 anos públicos superiores a 10 mil pessoas
no Bruno Daniel eram comuns, tal meta hoje soa quase utópica.
Mas
ficarei muito feliz se conseguirmos públicos como esses
na fase decisiva da A-2.
Carlos Silva
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Carlos
Silva é funcionário público e Ramalhino desde 01/10/1978 |