Bruno Daniel: o incrível estádio que encolheu
O
duelo tão aguardado entre Santo André e Corinthians,
no último dia 12/7, levou 10.468 pagantes ao Bruno Daniel
(80% deles corintianos), o maior público da temporada
em nossa casa e proporcionando ao Santo André uma arrecadação
líquida de R$ 212 mil, por conta da majoração
(ou melhor diria, multiplicação) do preço
dos ingressos. Mas, ao contrário do que possa parecer,
isso não foi um bom sinal porque comprova que
nosso estádio é bem menor do que se supõe.
Há
alguns anos dizia-se que o Bruno Daniel poderia comportar 20
mil pessoas e há quem jure que já tivemos um público
desses (em outra partida contra o Corinthians, na despedida
do lateral Zé Maria). Mas sempre achei esse número
exagerado. Certa vez fiz um cálculo por conta própria
e cheguei a cerca de 15 mil lugares, com lotação
total, sem descontar os espaços para circulação.
Com
a promulgação do Estatuto do Torcedor, que passou
a responsabilizar os clubes mandantes em caso de tumultos provocados
por superlotação, um fenômeno curioso se
deu em todo o país: o encolhimento dos estádios.
De repente um colosso como o Morumbi, que recebeu oficialmente
120 mil pessoas na final do Campeonato Paulista de 1977 (no
fim da "fila" corintiana), passou a comportar não
mais que 80 mil. Certamente as novas exigências de conforto
(?) para o público, somados ao medo da cartolada de sofrer
punições, foram as causas desse estranho fenômeno
de contração do concreto, não explicado
pelas leis físicas.
O
Bruno Daniel não escapou dessa síndrome de encolhimento.
Há algum tempo o sítio da FPF atribuía
ao Estádio Municipal de nossa cidade pouco mais de 14
mil lugares sentados. Atualmente, aquele sítio não
traz mais informações sobre a capacidade dos estádios.
Mas não há razão para supor que esse número
tenha mudado.
Na
partida do último dia 12, por razões de segurança,
o comando do policiamento limitou inicialmente a carga a 10
mil ingressos, mas o clube conseguiu aumentá-la para
12 mil. Quem esteve no estádio acredita que até
poderiam ser colocadas mais 2 mil pessoas, mas somente no setor
coberto, pois a arquibancada estava completamente tomada. É
bastante razoável supor, então, que de fato o
Bruno Daniel não abrigue mais que 12 mil pessoas em condições
adequadas; mais que isso, seria arriscado.
Só
mesmo afetivamente podemos chamar nosso estádio de "Brunão",
pois ele é, sem dúvida, um estádio pequeno.
A altura da arquibancada dá a impressão de grandiosidade,
mas essa impressão é ilusória: se ao invés
de um lance único houvesse um anel em torno do campo,
com a mesma metragem linear da arquibancada existente (e portanto,
a mesma capacidade de público), a altura cairia pela
metade e ficaria evidente a real dimensão do Bruno
Daniel.
E
onde estou querendo chegar com essa conversa toda? Simples:
o regulamento do Campeonato Brasileiro da Série A determina
que somente poderão ocorrer partidas do campeonato em
estádios com no mínimo 15 mil lugares sentados.
E o Bruno Daniel decididamente não tem essa capacidade.
Se o Ramalhão conseguir o tão sonhado acesso à
Série A, a pequenez de nosso estádio será
um problema muito sério: se não se der um "jeitinho"
de "esticar" o estádio novamente, com certeza
teríamos que mandar jogos fora de nossa cidade, o que
provavelmente tornaria nossa participação na elite
mais curta que vôo de galinha.
E
o problema não é somente o tamanho do estádio,
mas suas condições. Há alguns dias tive
a oportunidade de vistoriar rapidamente a arquibancada e não
gostei nada do que vi. O concreto já está desgastado,
com rachaduras e cantos vivos nos degraus que podem ferir alguém
que se sente ali. Em algumas frestas há até tufos
de mato crescendo. Do setor coberto, já estamos cansados
de falar. Pequenas intervenções cosméticas
já não disfarçam a precariedade das condições
de nosso estádio, que implora por uma reforma geral.
Está
na hora de encarar, com seriedade e de forma definitiva, a questão
do Bruno Daniel, pois ela é fundamental para o futuro
do Ramalhão. Ou se parte imediatamente para uma reforma
e ampliação do estádio, ou o futuro do
E. C. Santo André no futebol profissional estará
irremediavelmente comprometido. Já que o estádio
é um bem do município, não existe como
dissociar futebol e Poder Público em nossa cidade (a
não ser que apareça por aqui um bilionário
estrangeiro, gaste uns R$ 100 milhões para construir
uma arena novinha na Avenida dos Estados e a doe para o Ramalhão,
hipótese nada razoável).
Então
é o momento de cobrar, da Administração
da cidade, a renovação do compromisso com o futebol
profissional de Santo André, como fez Celso Daniel há
uma década e não é de compromisso
financeiro que estamos falando, pois há instrumentos
legais para a participação da iniciativa privada.
O que se precisa, mais do que tudo, é que ressurja o
envolvimento cívico, afetivo e político da cidade
com o Ramalhão, sem o que qualquer projeto de crescimento
já nascerá fadado ao fracasso.
Idéias
para modernização do Bruno Daniel não faltam.
Eu mesmo ousei criar um projeto há alguns anos, que consistia
em continuar a arquibancada atrás do gol dos fundos e
substituir a pesada marquise por um lance de cadeiras superiores,
que daria ao estádio um aspecto de arena e aumentaria
sua capacidade para 20 mil lugares. Se alguém tem mais
idéias, que as apresente. Quem sabe não conseguimos
improvisar um concurso...
Carlos Silva
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Carlos
Silva é funcionário público e Ramalhino desde 01/10/1978 |