Homem
Primata, Capitalismo Selvagem!
Tempos atrás fiz uma entrevista com o cronista esportivo
Juca Kfouri. A certa altura da conversa, falávamos do
que é ter paixão pelo time do coração
e do que significa ter amor à camisa. Juca lembrou de
uma história que vivenciou na principal entidade de futebol
de São Paulo. Diretores da entidade riam quando ele falava
da paixão pelo time do coração, do amor
de um jogador à camisa que veste e coisa parecida. Insinuavam
que aquilo era passado e que futebol hoje em dia é só
negócio, ou business, para ser mais chique.
De fato, nunca na história da humanidade ganhou-se tanto
dinheiro com um esporte. Talvez amor à camisa seja mesmo
coisa do passado. Garotos que queriam ser boleiros tinham sonhos
de jogar num grande time, para uma grande platéia. Esses
sonhos continuam, mas acho que vem na frente a vontade de faturar
alto nas Arábias, Europa ou Japão; ter uma modelo
como namorada e uma Ferrari. Nada contra, mas é pena
que o futebol - símbolo de nacionalidade para os brasileiros
- esteja exageradamente mercantilizado.
Voltando à camisa, é justamente por amor a ela
que prefiro vê-la sem publicidade (digo isso com todo
respeito à Coop). Mas se isso é inevitável
hoje em dia, ao menos que ela fosse mais discreta. Uniforme
de time, para mim, é sagrado. Hoje, até traseiro
de jogador serve para anunciar.
E time que vira empresa? Vejam a história lamentável
do Paulista de Jundiaí que ficou com nome de extrato
de tomate; a do Ituano que é "Sociedade de Futebol
Ltda"; a do Parma, da Itália, que está sendo
vendido pela dona do time, a Parmalat; e a do Corinthians que
agora tem um "dono" iraniano que não fala português
e que recentemente descobriu que futebol se joga com onze de
cada lado. Acho tudo muito perigoso. Sou homem primata, mas
apaixonado. Torcedor também é dono do time. Não
sou simplesmente consumidor de um produto chamado futebol. Uma
coisa são as empresas quererem comercializar produtos
com a marca do time. Outra coisa é o time virar produto
que se compra e vende.
Time não é marca de carro, sabão em pó
ou papel higiênico que eu escolho, compro, uso e jogo
fora ou revendo. Se um dia o Esporte Clube Santo André
virar qualquer coisa como "Santo André Empresa de
Futebol Limitada", eu desisto. Vou torcer para os barrigudos,
de bem com a vida, do Independência da Vila Assunção.
Enquanto isso não ocorre, continuo gritando à
vontade: É RAMALHÃO EÔ!!!!!
Luiz
Henrique Gurgel
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Luiz
Henrique Gurgel é jornalista. Foi batizado
como Ramalhino em 28 de julho de 1974, aos 8 anos de idade.
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