|
Entrevista
com José Carlos Batista, o zagueiro Cite, em 16/03/2008.
"Entrevistadores": Alexandre Bachega e Marcelo Bellotti.
 |
Revelado
no futebol amador da cidade, Cite foi o primeiro Quarto-zagueiro
da história do Santo André. Participou do primeiro
amistoso não oficial do Ramalhão (Santo André
3X1 Saad, 13/03/1968), da primeira partida oficial (Santo André
2X1 Santos, 08/04/1968) e da partida inaugural do Estádio
Bruno José Daniel (Santo André 0X4 Palmeiras,
14/12/1969) |
Marcamos
a entrevista por telefone e quando chegamos a casa do Cite, o encontramos
bastante emocionado. Conversamos por volta de 40 minutos antes da
entrevista e por várias vezes ele nos disse que os Ramalhonautas
foram os únicos a lembrar dele.
Onde
você começou a carreira, Cite?
Na várzea, né, nessa época aí, mais
no Vila Alice, joguei mais de vinte anos no Vila Alice na Várzea,
tenho o maior amor é pela várzea, realmente eu falo
que isso é que nem um câncer, a gente nunca... ta sempre
com a gente, né. Não tem jeito, mas fora eu joguei
em outros times, nossa... joguei no Santos do Parque, no Sete de
Setembro, São Jorge, quem mais? joguei em tantos times...
Firestone, eu entrei na Cofap com... eu fui ferramenteiro na Cofap,
eu tinha 14 ou 15 anos e já era titular da seleção
da Cofap, não era fácil, você jogava com um
monte de cara de nome... futebol de salão, também,
joguei no Primeiro de Maio, onde tive muitos títulos, só
que era gozado, no Primeiro de Maio eu era atacante. Eu comecei
no futebol como atacante, eu era um ponta de lança, não
um centroavante fixo, naquele tempo eram praticamente cinco atacantes,
quatro atacantes e só dois no meio campo, era o 4-2-4, não
tinha jeito... no meio de campo você "morria"...
marcar no meio campo você tinha que ter fôlego, né.
Depois eu fui mudando, tem um tal de Ferreira, técnico do
Vila Alice que me viu jogar uma vez e me disse "Olha, você
vai vir jogar prá nós". Aí ele me colocou
de meia armador... passou um tempo, eu virei médio volante.
Eu joguei muito de médio volante, eu gostava muito de jogar
de volante, gostava de pegar a bola, dar aqueles piques em cima
dos caras, precisa ter fôlego. mas quando você vai treinar
com os profissionais, você não tem chance de jogar
como volante, era a posição mais disputada... volante,
meia esquerda ou direita. Eu joguei um bom tempo no juvenil do Corinthians,
no Bom Romão, no São Bernardo... sempre de quarto
zagueiro, por que quando o técnico vai formar o time ele
pergunta: quem é goleiro? Um monte. Quem é lateral?
um ou dois. Quando chega ao meio campo... é dez ou mais...
você não tem nem chance de treinar. Aí comecei
a gostar de ser quarto zagueiro. Só que na minha idéia,
quarto zagueiro e central é a mesma coisa..., pois você
tem que trocar sempre de posição, fazer cobertura
quando o outro zagueiro sai... foi a posição que eu
encerrei a minha carreira agora em 2003, que se foram os dois joelhos.
E agora por causa desse acidente que aconteceu comigo, não
tem mais jeito de eu jogar mais não... agora chega mesmo.
(Nota dos Ramalhonautas: Cite foi vítima
de um atropelamento em 12/2007)
Como
profissional, só jogou no Santo André?
Só no Santo André... eu treinei seis meses no São
Paulo. Em 63, cheguei a jogar duas vezes no aspirante do São
Paulo. O Poy me indicou pra jogar em Araçatuba, no São
Paulo de Araçatuba, eu fui pra lá... só que
eu tava no Tiro de Guerra, eu falei pra eles que eu tinha que voltar
pro tiro, senão eu perdia o ano, voltei pra Araçatuba
já com contrato assinado, mas não cumprido...
praticamente só a base de água, sem comer... fiquei
barrigudo e caveira... e um calor desgraçado!!! Por que os
caras não cumprem o que prometem... aí eu pensei:
quer saber de uma coisa, eu vou embora... caí fora de lá...
quando eu cheguei aqui, faltava a assinatura do meu pai, pois eu
era menor de 21, tinha 19, acho, e aí consegui rasgar o contrato...
o pessoal me levou o contrato pra assinar eu levei lá pra
dentro e rasguei e falei, pode ir embora que eu não vou mais
pra lá não... não fiquei preso, né?
Só que eles me ligavam pra caramba querendo que eu fosse,
dizendo que tinha jogo da segunda divisão, daqueles times
que jogam duro pra caramba... não era fácil. Treinei
no Corinthians também, um tempo antes do São Paulo,
também não deu certo por que eu falei pra vocês
que eu era médio volante... chegando lá pra treinar,
tinha times e times formados, tudo esperando pra jogar... Quando
começamos a treinar, esses professores de escola levou a
gente com um time, três do Vila Rica, um do Brasil e um da
Federação. Pô... matamos a pau os caras com
o toque de bola, o técnico era o Alfredo, ele foi pro Nacional,
ai entrou o Rato, um cara mal educado, ele chegou num restaurante
e tinha uma chancela que tinha lá e tava barrando a passagem
e só ele que tinha o cartão autorização
né, então ele veio, e o outro meu colega, por que
eu fui em dois, né... de cinco fomos só em dois...
aí os outros... "- volta daqui há um mês"...
aí ele começou a chiar, né... aí ele
nos mandou pra aquele lugar.
"-Quer voltar à hora que eu quiser!!!" Foi assim...
pô, a gente foi lá pra falar com o técnico...
eu sei que eu treinei um jogo, a pedido do técnico que queria
me ver mais uma vez, e depois me dispensou. A turma até estranhou
lá, mas tudo bem. Mas aí foi só isso.
Profissional eu joguei só no Santo André mesmo.
Quem
fez o contato para você jogar no Santo André?
O Santo André estava fazendo as peneiras para escolher
os jogadores... e podia participar qualquer um. Nos times da várzea,
os próprios técnicos indicavam os melhores do time.
No Vila Alice, foram indicados uns cinco jogadores e eu nem estava
no meio! Nessa época eu trabalhava na Firestone e um amigo
meu veio me chamar para ir lá na peneira... e você
sabe como é, né? a gente adorava jogar bola e eu topei.
Chegando lá, eu começei a jogar e depois de uma meia
hora o Manga já me puxou e me falou: "Vem cá,
você vai jogar no meu time".
Então não foi um contato pra jogar; houve a peneira,
você jogou e o Manga já fez um contrato!
Sim, fiz esse jogo treino, contra o Santo André, por
que o Santo André fazia muito jogo treino, nossa... depois
que eu entrei lá, jogamos um monte de vezes, pra preparar
o time, por que vinha muito jogador de Santos, e a maioria ia embora
por que não dava certo e aquele dia deu certo pra mim.
Isso
foi antes da fundação?
Acredito
que já tenha sido depois da fundação, eles
estavam preparando as coisas.
Qual
era a expectativa da cidade quanto à fundação
do time?
Olha
a cidade sempre foi meio apagada pra isso, nunca teve incentivo...
o pessoal gostava mais da várzea mesmo, né? E não
foi feito um trabalho de marketing avisando o pessoal que Santo
André estava lutando pra ter um time, chamar os times de
várzea pra ver jogos, fazer preliminar com times de várzea...
uma vez ou outra só! Quando fazia isso enchia de gente, o
pessoal ia mesmo, então a falha foi essa... faltou mais divulgação!
O Santo André sempre teve tradição de jogadores
da várzea darem certo no time... o Tulica por exemplo, saiu
da várzea...
Nossa Senhora... o Tulica pelo amor de Deus, eu tenho amizade com
ele, já jogamos juntos no Aramaçan, foi um centroavante
que acho que não existe igual hoje, sinceramente, falta hoje
um cara como ele, rápido, tem um domínio de bola que,
mata no peito igual o Pelé fazia, a bola parava, e é
artilheiro. O Tulica poderia ser hoje um treinador de centroavante...
Quando
montaram o time, o primeiro amistoso foi contra o Saad, não
é? 3 a 1 para o Santo André.
É...
amistoso com profissionais foi o primeiro. Plantaram a grama do
estádio do Corinthinha, naquele dia choveu pra caramba, a
grama era nova, mas com a chuva só ficou o barro.
O Saad tinha um timaço... tinha um tal de Zé Carlos
que jogou no Noroeste e na Portuguesa, ele era atacante. Fiz uma
marcação nele, e o que ele me xingou... (risos) Acho
que eu fiz umas 40 faltas nele. O campo tava muito liso... e o Manga
gritava: "Chega junto... Chega junto!!" E com um cara
desses você tem que fazer assim... tudo falta leve, sem maldade!
Ate hoje quando eu o vejo, comento. "Poxa, aquele dia você
me xingou pra caramba!!"
Você
lembra quem fez os gols?
Não
lembro, não consigo me lembrar... eu sei que estava 1 a 0
pra gente, eles empataram e nós fizemos 3 a 1. Depois, em
seguida jogamos com o Santos. Aí o campo estava seco!!!
Inclusive
essa foi considerada a primeira partida oficial. Quando falaram
que a primeira partida seria contra o Santos de Pelé como
vocês receberam?
Nossa
senhora, A gente sabia que vinha um time misto, mas quando o Pelé
chegou lá ficou todo mundo louco... eu sou Pelezista, se
alguém falar mal do cara, eu fico doido! Falar em Maradona...
Sem comparação! Isso é brasileiro querendo
falar mal de brasileiro!!! Tem que dar valor pra ele!!! Vê-lo
foi a maior emoção... ver o cara entrar em campo...
eu só senti não tirar fotografia com ele. O Cesar
Franco, que era preparador físico tem as fotos com o Pelé
e com todo mundo. Ele tem tudo na mão, inclusive. Você
fala com ele e ele tira do bolso e te mostra. Foto com o Edu e todos
os caras. No fim de ano a gente se encontrou e ficamos vendo as
fotos. Alguns podem achar idiotice, mas eu acho legal pra caramba...
é um fato histórico... Não pode deixar passar...
Quem viu o Pelé jogar como eu vi. Eu fui à Javari
ver o Pelé jogar... Lá devem caber umas três
mil pessoas, né... devia ter uns dez mil. Gosto muito de
bom futebol. Aquele jogo foi emoção! Eu vi Pepe, Orlando
Peçanha campeão do mundo, vi Negreiros, Aroldo, Turcão...
que eu lembro foram esses... foram vários jogadores, esses
foram os que eu lembro. O Palmeiras quando veio... nossa, veio tanta
gente... tinha até Argentino contra nós... um Argentino
entrou de centroavante, um cara bom!
Não
era o Madurga?
Não!
Acho que nunca teve chance no time de cima! O Palmeiras que veio
jogar aqui era o primeiro ano do Luiz Pereira, Alfredo... todos
eles tinham sido promovidos ao time de cima!
Após
o jogo do Santos, o Pelé elogiou muito o Santo André...
Declarando que "Esse time vai longe"...
Foi sim! Eu não me lembro de ter lido, mas o pessoal
falou... O Manga, por ser de Santos fazia o Marketing do clube por
lá! Ele conhecia todo mundo! O Pelé chegou a jogar
com ele, no final da carreira dele, então era muito legal!
Quando a gente ia pro jogo, que ficava lá na arquibancada,
o povo ficava tudo com a gente... era legal pra caramba!!! E naquele
dia no Corinthinha, tava lotado também, não cabia
mais ninguém, você não via nenhuma brecha...
Acabou
o jogo, ganharam do "Todo Poderoso" Santos... Como foi?
A
gente foi pra um jantar, um jantar na Churrascaria São João.
Eu fui, mas eu sofri pra caramba, pois tinha machucado o
joelho e eu não tinha condução, tive que me
virar, não tinha nada!!! Fui pra casa sozinho, sofri pra
caramba, aí no outro dia fui trabalhar, aí eles me
mandaram no Brandão, o Dr. Brandão era o presidente
e era médico da Santa Casa e me mandaram ir lá falar
com ele. Eu fui. Ele olhou assim, disse "Olha, eu vou engessar!"
Nem tirou chapa nem nada! e me mandou pro gesso... quando chegou
lá no gesso, a pessoa que ia me engessar era enfermeiro da
Firestone. Um cara invocado!!! Fingiu que não me conheceu.
Falou "olha eu vou engessar daqui até aqui embaixo"
(Mostrou a perna inteira com as mãos). Eu disse "Opa!!
Eu vou por o gesso daqui até aqui só!!" (Mostrou
apenas a área do joelho). "Depois como é que
eu vou trabalhar, meu??" Eu dependia do trabalho... não
deixei engessar não!!! Fiz o tratamento, foi a melhor coisa.
mas o jantar foi muito bacana!!
Quais
jogadores você lembra mais daquela época?
Olha,
eu lembro muito do Albertinho, hoje tem uma lanchonete... Eu até
fiz uma visita a ele agora, e chegando lá ele não
me reconheceu... de cara não!!! Depois conversamos e ele
chorou muito!!! Eu também!!! Aí eu dei um presente
a ele... (uma foto do time de 1968) ele pendurou na parede da lanchonete...
jogava muito ele!!
Existia
alguma rivalidade entre o Santo André e o Corinthinha?
Acredito
que não, por que eles emprestavam o campo inclusive, a gente
mandava jogo lá...
Dizem
que quando construíram o Brunão eles quiseram usar
o estádio também, depois tiveram que se licenciar
do Paulista...
eu
sei que depois que eu parei no Santo André eles voltaram
pro profissional, a gente ficou um tempo jogando junto depois eles
pararam de vez. Agora é clube, somente.
Você
lembra-se de alguma história engraçada ou curiosa
da época?
Sempre
tem... uma não foi engraçada, nós fomos jogar
contra o Derac de Itapetininga, e quando eles vieram aqui... saiu
briga!!! A nossa torcida bateu neles!! Um cara disse "- Lá,
vocês vão ver!!" Poxa... nós somos jogadores...
a briga foi com a torcida. Lá o ambiente pesou, cara!! O
pessoal querendo matar a gente logo que nós chegamos!!! Aí
veio o jogo!! Tinha um cara, que no jogo daqui, nós fizemos
a maior amizade com ele... até por que eu era um cara leal.
Então quando chegou lá, entramos em campo ele veio
me procurar... Me cumprimentou e disse "Olha, hoje a barra
vai ser pesada, mas você pode ficar tranqüilo,
que a hora que sair a confusão eu vou te proteger!"
eu falei para ele: "Você vai me desculpar, mas
eu vou com o time também, não vou deixar ninguém
sozinho!" E nós demos azar de fazer um gol logo de cara...
o Joaquim que jogava muita bola. Aí eles começaram
com pontapé, socos, deram um soco na cara do juiz!!! O juiz
expulsou o cara!!! Eles com dez, aí eles empataram, na marra,
aí teve um lance que eu nem disputei com o cara, eu dei um
carrinho pra escanteio, o cara nem participou. O juiz deu pênalti!!
Isso
foi no Paulista de 1968?
Isso,
no Paulista de 1968, segunda divisão... nem dá pra
acreditar... eles fizeram 3 a 1!!! mas nós saímos
vivos de lá!!! Até eu lembro que dei uma entrevista
pro Jose Carlos Araujo sobre esse lance.
No campeonato de 1968, o Santo André liderou da primeira
a última rodada e dependia apenas de um empate contra o pior
time do campeonato, o Portofelicense, para ir a final, porém
nós perdemos o jogo. O que aconteceu? O time achou que a
vaga estava garantida, ou a mudança do jogo de domingo pra
sábado, atrapalhou?
É
verdade! o jogo foi antecipado mesmo! como vocês lembram disso???
(risos) Agora estou lembrando, nós estivemos lá!!!
Era um campo de várzea, mas gramado. mas não
houve nada disso não, é que os caras armaram uma correria
do caramba e nós demos muito azar também. Nós
discutimos, o Manga trocou mas não teve jeito. Foi
um a zero pros caras. Nós perdemos muito de 1 a 0. Nós
jogamos com o Oeste de Itápolis também, perdemos de
1 a 0 lá... aqui nós ganhamos, mas lá...
o cara bateu um escanteio na meia lua, dentro da área. O
Nelson, um baita jogador, subiu com o cotovelo na bola... pênalti!
O Dorival, cara... parece que tinha 100 paus de bicho... Nossa Senhora...
eu não falei nada com o cara, por que... mas o Dorival...
"Você acabou com o meu bicho!!!" Deu a maior dura
no cara. mas o cara jogava muito, mas deu branco cara!!!
Deu branco!!! O cara não podia por a mão na bola,
o cara parecia o Ademir da Guia, bom pra caramba!!! Então
esse outro jogo aí... eu me lembro do jogo, foi um jogo duro,
viu... os caras marcaram em cima...
Nosso
amigo
Elias até comenta aqui, que quando anteciparam o jogo para
sábado, o Velo Clube enviou torcedores para Porto Feliz para
apoiar o Portofelicense.
Ah! Eu não lembro não, acho que não tinha quase
ninguém no campo, meu!!! Eu não me lembro disso não!!
Não teve nada de pressão assim que eu lembre. Foi
jogo normal. Os caras aprontaram uma correria e nós perdemos.
Nós podíamos ganhar dos caras, tínhamos muito
mais time, mas não adianta, aquele dia não
adiantaria!!
Depois
o time se licenciou, não jogou os campeonatos de 1969 e 1970.
Demos
uma parada, em 1970, um tal de Valdemar Ferreira que já faleceu
também, quis voltar com o time, fez vários amistosos,
depois fez o São Paulo jogar aqui, só que o treinamento
nosso era de amador, não pagava, não tinha salário,
eles estavam se estruturando.
Onde
vocês treinavam?
Treinávamos
no campo do Sete de Setembro, no Valparaiso, com o mesmo uniforme
que a gente jogava aqui, só tinha um uniforme. Nós
jogamos contra o Rio Branco de Americana, jogamos lá e aqui.
O São Paulo veio com o time misto. Contra o São Paulo
foi jogo... nossa... Eu jogava de quarto-zagueiro e abaixo do peso
é fogo... pra pegar o misto do São Paulo, os caras
com um preparo físico violento... O que o nosso técnico
fez no dia do jogo... tinha um negão que jogava lá
atrás e ele quis me colocar em outro lugar... disse: "Você
vai jogar de volante hoje." Eu disse "Pelo Amor de Deus,
eu não agüento jogar de volante, não tenho preparo
físico pra agüentar os caras." "Vai jogar
de Volante!!" O time dos caras tinha o Zé Carlos Serrão,
Gilberto Sorriso, Gersinho, que hoje mora na Vila Dirce... eu sei
que começou o jogo, eu tinha que marcar o cara. Quando eu
olho, o cara já tinha passado e já tava querendo marcar
o gol no começo do jogo... eu pensei: "Como é
que eu vou agüentar jogar com um cara desses." Não
tem condição... Esse jogo eu não esqueço!
Foi 1 a 0 pro São Paulo! Foi no Brunão! Aquele dia
encheu, tinha bastante gente. Mas aí, você não
recebe... só que eu trabalhava na Firestone, nunca larguei,
nem podia... como é que eu ia fazer, não é
que nem agora, com o salário de 15 ou 20 mil, naquela época
pagava-se uma mixaria, não tinha como largar o emprego. Naquela
época eu já tinha três filhos, um faleceu em
1968, quando eu jogava no time do Santo André, por um problema
médico. mas como eu não ganhava nada, não
havia como sustentar a família. Eu precisava construir minha
casa, eu pagava aluguel, o pessoal me cobrando aluguel. Eu fui morar
com a minha tia, pedi para ficar um ano e fiquei cinco. Passei um
apuro mas construí a casa.
Naquela época o futebol não pagava bem...
Não!!! Tem uns times de fora que nem pagava nada!!! O cara
te arrumava um emprego!!! Quando eu fui contratado lá pra
Araçatuba, eu tinha um salário pequeno e um emprego
na cidade, onde eu podia sair a vontade pra jogar. mas eu
nem experimentei! Nem fui atrás. Por que eu queria mesmo
era Volkswagen, jogar e trabalhar. Quando tinha jogo "fora"
apareciam mais de sessenta jogadores na hora do jogo. Fomos fazer
um jogo treino na Rua Javari, contra a Volkswagen, apareceu na hora
do jogo na Volks um monte de jogadores... todos querendo jogar.
Qual a sua opinião quanto ao Santo André voltar
a olhar pro futebol amador, uma vez que o último que teve
foi o Anderson Careca?
O problema é que agora o moleque já chega na base
e quer ir pra Europa. É muito difícil agora. Não
fica, o cara não ama a camisa! Tem que honrar a camisa que
veste! Não pensa em jogar uns cinco ou seis anos, não!
Já quer ir pra Europa, já tem empresário! Quem
ganha é o empresário! O empresário é
quem está acabando com o futebol! Hoje você pega qualquer
time de São Paulo, você não sabe a escalação!!!
O Santo André deu essa melhorada boa neste ano, por que manteve
a base, apenas modificando algumas peças! Eu acho que tinha
que ficar no clube até 23 anos! Não tem condições
de manter o time de base. Você vê o Neimar no Santos,
o cara ganha a maior grana por mês!!! Tem cara no time titular
do Santos que não ganha mais do que ele.
Vamos
falar o nome de alguns jogadores daquela época... diga o
que lembra da personalidade deles:
Dorival - Era goleiro, tinha uma personalidade muito
forte, gostava de mandar mesmo. Ele falava e não tinha palavra
suave com ele não! Aquele dia com o Nélson (do bicho)
ele deixou o cara lá embaixo. Ele queria ganhar sempre, tinha
uma personalidade super forte. mas comigo ele sempre foi
legal. Muito disciplinado!
Dirceu
- Cara gente fina, centroavante. Ele quase nem jogou no time! mas
contra o Santos ele jogou sim. Não sei se ele saiu jogando
de titular ou se entrou depois, mas ele era um cara que na
várzea era artilheiro. Gente fina. Também trabalhava
fora, tinha outro emprego.
Édson
- Além de jogar muita bola, ele tinha uma liderança
violenta! Ele também não queria perder de jeito nenhum!
Ele jogava Muito! Eu joguei com ele muito tempo. Aconteceu um episódio
comigo e com ele, que eu fiquei alguns dias sem dormir! Ele não
quis por em pratos limpos... deixou como estava! Nós fizemos
um jogo contra o Usina Santa Rosa do Viterbo, lá no meio
do mato, na usina. Eu não sei o que houve, eu sei que machucou
gente e nós ficamos sem zaga, eu nem me lembro por que. Eu
sei que no treino, quando eu cheguei, por que eu trabalhava, o pessoal
estava todos sentados e ele tava metendo o pau num cara, no meio
da rodinha com o Manga junto. Eu pensei, poxa o cara que achou bom
que machucou gente ele tem mais é que se danar mesmo. E ele
metendo o pau no cara. Aí eu fui falar com o Anísio,
que era o cara que se machucou, eu fui falar com ele, perguntei:
"Anísio, quem era o cara que o Édson tava falando
na roda?" ele disse "de você!!" eu falei "Que
nada cara!! Onde se viu que eu ia falar alguma coisa com outro cara".
Fiquei super chateado. Pensei que em uma outra hora a gente se explica!
Aí parou, que eu não quis voltar no assunto, aí
um tempo depois o técnico era Valdemar Ferreira, e nós
estávamos treinando no campo do Sete. Quem aparece lá?
O Édson. Eu era capitão, ele veio me chamar pra que
eu o encaixasse no time de novo. Eu o encaixei no time de novo.
Falei com o Valdemar: "O cara ta voltando, joga muito, pode
colocar ele". Essa foi a minha resposta pra ele.
Zé
Roberto - Era lateral. Tinha uma bomba no pé direito.
As faltas era todas ele quem batia. Se fosse no gol era gol!! Eu
não lembro se ele fez gols, na época a gente não
ficava treinando específico, como agora, não tinha
treinador de goleiro nem nada naquele tempo.
Fedato
- Nós jogamos um dia, eu tava machucado, mas joguei,
um amistoso no Corinthinha contra o Nacional. Jogou o Fedato e Feijão
(Luiz Carlos Feijão), aquele que fez o papel de novo Pelé!
Os dois jogavam muito. O Santo André ganhou de 2 a 1! Aí
passou um tempo e trouxeram ele pra cá, os dois! mas
eu acho que ele jogou um ou dois jogos depois sumiram também!
Aí o Palmeiras aproveitou bem ele! Ele morreu faz pouco tempo!
mas ele era bom, artilheiro mesmo! mas eu quase não
convivi com ele, eu estava machucado e ele jogou muito pouco. Eu
lembro que ele jogou um dia em que trouxeram uma seleção
do Congo lá no Corinthinha, foi 1 a 0 gol de pênalti.
Eu não joguei aquele jogo, estava assistindo, pois estava
machucado. Foi logo após o jogo contra o Santos. Depois foi
contra o Nacional. Tinha muita gente naquele jogo no Corinthinha.
Lotou também igual contra o Santos, gente trepada em tudo
quanto que era lugar! O pessoal gosta de jogo assim mas tem
que anunciar antes, ter tudo programado direitinho! Apesar de que
agora tem mais ou menos 1400 pessoas de média que pagam!
Tijolo
- O Tijolo é aquele que jogou na Pirelli? Se for ele, eu
só joguei contra. O Santo André fez dois treinos com
a Pirelli e eu joguei contra ele. Nossa senhora... como jogava!
O cara fez gol!!! Ele era um ponta esquerda ignorante pra chutar!!!
Nesse jogo treino contra a Pirelli, que também era um time
semi-profissional. Só boleiro!!! O jogo foi 4 a 2 pra eles!!!
Acho que ele fez dois gols de fora da área, quase furou a
rede. Era tipo Pepe, era um ignorante pra chutar!!! Depois trouxemos
eles pra revanche no Corinthinha e ganhamos de 2 a 0 deles. mas
eles tinham um belo time, era um tal de Galhardo que jogava na frente.
A Pirelli sempre manteve times bons, com profissionais! Eles colocavam
pra trabalhar na fábrica também!
Enir
- O Enir era aquele meia esquerda clássico. Gente fina também.
Marcou contra o Santos (Nota:primeiro gol oficial
da história do Santo André). É,
foi ele mesmo. Eu me esqueço de muitas coisas dessa época!!!
Alberto
- Veio de Paranapiacaba! Nossa, jogava muita bola!!! Ele fazia
o ala!!! Era um jogador tipo Cafu!!! Ia e voltava!!! Incrível!!!
Zezé
- Veio de Santos, um cara rodado, experiente, jogava muita bola!
Tinha experiência internacional! Ele é quem acalmava
o time! A gente começou a ganhar vários jogos por
causa dele, daquela experiência dele, a gente era tudo meio
afoito! Gostei muito desse cara! Veio e colocou ordem na casa!
Mario
- Também veio de Santos, era um volante tipo Pierre,
Josué... o cara participa, sabe jogar, os passes tudo certinho.
Um cara que é difícil você ver agora.
E
o Manga?
Deixa contar uma coisa, quando eu machuquei o joelho, quando eu
voltei a treinar, se houvesse um departamento médico, pra
que eu voltasse devagarzinho, tivesse um acompanhamento... Não!
Já me jogaram pro treino! Aí nós fizemos uma
roda e o Manga é quem dava o aquecimento pra gente. Ele pegou
um bambu, de mais ou menos um metro de comprimento, e começou...
rodar nas pernas da gente! Tinha que pular... E eu com o joelho
doendo!!! E tinha que pular!!! Se não levava cada bambuzada
na perna!!! Aí o joelho inchou!!! Depois do treino ele desinchava,
voltava ao normal!! mas era o que acontecia. Não tem
nada disso agora, o técnico só trabalha com o time.
O técnico hoje só trabalha no campo!!
O
Elias conta que pelo que consta em seus arquivos tinha o Cabeção
1 e o Cabeção 2... ele pergunta quem eram os "Cabeções".
O
Coletti jogou em Portugal, depois na Bolívia ou no Equador,
ele acho que foi o Cabeção 1, por que ele era mais
velho!! O Cabeção 2 era o Baitá, da várzea,
não sei se é esse!! mas ele não chegou
a ser profissional!!! Ele morreu muito cedo, com menos de 30 anos!!
Ele trabalhava comigo na Firestone, arrumaram emprego pra ele, era
eu, ele, o Roni que jogou também no Santo André. O
Roni agora tomou jeito, estudou...
Você
tem contato com os jogadores daquela época?
Tenho
um contato maior com o Alberto. O restante a gente não se
vê mais, há alguns anos atrás eu vi o Enir,
tava jogando na várzea também! Ele tinha uma coisa
gozada, parecia pai de santo!!! Ele andava com uns colares no pescoço.
Ele treinava com os colares! (risos) A gente tinha uma amizade muito
grande! Agora, pra ver é difícil. O Zé Roberto
nunca mais eu vi! Esse Dorival deve morar em outra cidade! O pessoal
que era de Santos, também não vejo mais. O Nelson
jogou no Saad, uns três anos depois. Jogou contra nós
aqui!!! Eu não vi mais esses caras, devem estar em Santos!!!
Contato mesmo nesses últimos anos eu só tive com o
Albertinho!!!
Para
você, o que significou jogar no Santo André?
Pra
mim foi a maior emoção!! Por que eu jamais esperaria
ser profissional aos 24 anos!! Eu já não esperava
mais!! mas aí deu tudo certinho!!! Meu chefe falou:
"Vai que eu garanto aqui na fábrica!" Chegando
lá no time o pessoal reconhece a gente... Nossa é
bacana pra caramba!!!
Como
foi para você ver o Santo André no Maracanã,
sendo campeão da Copa do Brasil e pensar: eu fui o primeiro
zagueiro desse time?
Ohh!
Nossa Senhora... eu nem acredito em um negócio desses!!!
É impossível!!! Ganhar do Flamengo lá!!! Por
que ali, todo mundo ajuda o Flamengo, pra começar o juiz!!!
Todos querem ele lá em cima, por causa da torcida!!! E calar
a boca dos caras lá!!! Eu tenho os pôsteres guardados
em uma pasta!!! Só da minha época não tem!!!
Eu sinto muito por causa disso, de não ser lembrado. O Primeiro
de Maio de vez em quando chama a gente, mas agora já
tem algum tempo que ninguém liga!!! O cara que se lembrava
da gente, o Wilson Apolônio que também jogou futebol,
no começo do século, no Primeiro de Maio. Ele me chamava.
mas ele faleceu há uns dez anos. Aí acabou
a memória. Agora me deram uma carteirinha pra entrar no clube,
mas o certo era dar um título para cada um. Eu tenho
um monte de medalha aí! Se eu tiver cinqüenta, trinta
são do Primeiro de Maio. Toda semana a gente era campeão!
Toda semana! A gente papava tudo, campeonato regional, litoral,
uma ou outra a gente perdia. Só que naquele tempo era Futebol
de Salão, agora é Futsal. Hoje os caras ganham dinheiro
pra jogar, antigamente não. Não que o dinheiro seja
a maior motivação, mas o fato de você
tiver tranqüilo em casa, sem passar por problemas, é
outra coisa. Se tiver uma doença não tem plano de
saúde... é difícil pra caramba!!! Eu fui atropelado
há pouco tempo foram cinco fraturas só na perna!!!
Graças a Deus estou recuperado, até por ter sido atleta,
me ajudou na recuperação!!!
Tem algum fato curioso ou engraçado da sua carreira?
A gente jogava na várzea... lá na Vila Alice, eu casei
em 1965. Tinha um bar, e tinha um rapaz que jogava com a gente no
Vila Alice e perguntou: "Você não quer jogar na
Simca não? Aí você arruma um emprego lá."
Eu disse "Ah! Ta bom." Fui lá no sábado
e já na segunda feira já estava na fábrica.
Na terça-feira fui fazer exame médico. Todo mundo
me conhece por Cite, eu nem atendo pelo meu nome. Aí eu estava
esperando pra ser chamado pelo médico, e começamos
a conversar com os caras que estavam por lá, aí um
cara perguntou pra mim de onde eu era, eu disse que era da Vila
Alice. Ele disse: "Você é da Vila Alice?? Eu conheço
um monte de gente lá!!! Conheço o Cite, o Doda irmão
do Cite, o Plínio", falou os nomes de alguns boleiros,
e eu tava na frente dele... Aí eu falei: "Você
conhece o Cite?" ele disse "Conheço sim!"
Então eu disse: "Muito Prazer. Eu sou o Cite!"
(risos). O cara foi lá embaixo!!!
Seu
irmão jogou no Santo André?
Jogou um tempo, sim! Jogava de meio armador, meia esquerda! Daqueles
que não existe mais hoje! Batia pênalti, batia falta,
nessa parte ele era bem melhor que eu. E não treinava hein,
nada de treino!
Cite,
mande uma mensagem aos Ramalhonautas!
Será que eu consigo? (emocionado) Eu queria parabenizar o
trabalho de vocês e dizer que vocês continuem a apoiar
o Santo André, que o Santo André precisa muito de
vocês. Quero agradecer esse bate-papo, pois vocês foram
os únicos a lembrar de mim... e quando precisar é
só procurar que a gente está as ordens!
Muito
Obrigado!
 |
 |
|
Cite
Nome completo - José Carlos Batista
Nascimento - 05/03/1943 - Vila Alzira - Santo André
Posição - Quarto Zagueiro. Atuou de 1967
a 1970.
|
|