É Santo André, oba!
Ana Paula Tibério Smolka
Quando
eu tinha oito ou nove anos, meu pai nos levava, a mim e a meus
irmãos, ao Estádio Bruno José Daniel para
assistir aos jogos de futebol. Para quem não sabe, este
é o estádio de Santo André, cidade onde nasci.
Eu, meu irmão mais novo e meu pai torcíamos frenética
e apaixonadamente pelo time até a mais completa rouquidão,
aos gritos de "É Santo André, oba! É
Santo André, oba!", nas arquibancadas do velho Brunão.
Na verdade, apesar de ser uma criança tão tímida
e franzina, que sempre falava baixo e não pronunciava sequer
um palavrão, minha especialidade era xingar o juiz. Até
os mais experientes torcedores ficavam boquiabertos, ouvindo tamanhas
barbaridades na boca daquela delicada menininha. Minha irmã,
que devia ter uns onze ou doze anos e sempre foi do contra, gostava
de torcer pelos times que tinham jogadores bonitos, como o Grêmio,
onde jogava o Renato Gaúcho: coisas de pré-adolescente,
que, na época, eu ainda não entendia. Reflexo da
incompreensão dos demais torcedores andreenses eram as
dezenas de copos descartáveis, cheios de cascas de amendoim
e água, que desabavam sobre nossas cabeças, por
culpa dela.
Qual
não é minha surpresa ao ver que, depois de tanta
torcida e de tantos anos, o time da cidade, o Santo André,
seria o campeão da Copa do Brasil. Essa vitória
justamente sobre o Flamengo (olha a rixa paulistas x cariocas
aí!...), no dia 30 de junho, despertou recordações
deliciosas da minha infância. Apesar de achar que meu pai
ficará furioso, eu vou contar uma das minhas preferidas,
vou arriscar: assistíamos a um jogo, não me lembro
contra quem eu, meu irmão e meu pai. Gritávamos
desesperadamente o nosso já citado e, reconheço,
ridículo, grito de guerra andreense, quando, de repente,
ZUM! Algo passa voando na minha frente e cai em algum lugar, entre
os torcedores. Meu pai, com a mão na boca, olhando para
baixo e empurrando as pessoas, procurava afobado alguma coisa.
Ele dizia o que procurava, mas o som era abafado pela mão
que lhe tapava a boca e pelos gritos da torcida. Foi quando ele
olhou para mim, tirou a mão da boca e disse: "Minha
dentadura! Caiu no ralo!" Eu e meu irmão nos contorcíamos
de rir, olhando para o chão e para a boca desdentada. Alguns
desconhecidos, solidários com a tragédia particular
de meu pai, tentavam, com toda a força, retirar a grade
que cobria o ralo, o que era bastante difícil.
Pelo
que me lembro, conseguiram "pescar" a dentadura com
um palito de churrasco. O mais engraçado foi a cara satisfeita
do meu pai, pegando sua dentadura, colocando novamente na boca,
abrindo um enorme e satisfeito sorriso e recomeçando, um
pouco mais cauteloso: "É Santo André, oba!".
Que nojo!
Em
nome dos velhos tempos de fiel torcedora, dedico este texto ao
Santo André e o parabenizo pelo título conquistado.
"Conquistado" não é a palavra correta,
já que foi praticamente arrancado das mãos dos flamenguistas,
que já consideravam o título ganho. Parafraseando,
com algumas alterações, nosso querido Vinícius
de Moraes: os cariocas que me perdoem, mas em matéria de
futebol, ser paulista é fundamental.