As Aventuras de Valter Bittencourt
no Paraguai
Valter Bittencourt
Começa a guerra, e o vencedor é...
Do
enviado especial ao Paraguai, Valter Bittencourt
A
primeira impressão que tive ao chegar ao vestiário
do Santo André, foi a concentração total
de um grupo que tinha um objetivo claro. Sair da partida com os
três pontos e deixar a vaga mais próxima do que nunca.
Para descontrair, Alexandre, Richarlyson e Fumagalli jogam vôlei.
Outros fazem alongamento e o experiente Fernando fecha a cara
em um claro sinal de concentrarão plena. Para ele, o jogo
já começou. Me aproximo e falo das manchetes nos
jornais e a expressão dele ao ouvir o meu relato sinaliza
que a resposta virá em campo. Rodrigão, um dos mais
descontraídos brinca comigo dizendo que foi cortado na
preleção, o inocente repórter aqui em um
momento acredita, mas logo após o goleador do Ramalhão
desmente caindo na risada.
Outros
que aparecem no estádio são os valentes torcedores
da TUDA: Esquerdinha e Juca, que após uma viagem rodoviária
de mais de 20 horas, chegam mais dispostos do que nunca confiantes
com a vitória Ramalhina. Outros 30 brasileiros vieram ao
estádio pois participavam de uma excursão realizada
paralelamente por um grupo de Santo André, mas ao contrário
do que os atuais seis torcedores do Ramalhão vieram fazer
no estádio, este grupo torceu mais durante a partida para
o time paraguaio. Notava-se que haviam muitos palmeirenses neste
grupo.
Mas
voltando ao minutos que antecediam a partida: Os responsáveis
da FIFA pela regularidade dos jogadores foram ao vestiário
conferir nomes e números dos jogadores relacionado. Estava
chegando a hora, então decidi subir a cabine de imprensa.
Para chegar até ela passei pelo gramado que a princípio
parecia estar em bom estado, e logo na boca do túnel, o
presidente Jairo Livólis e alguns dirigente conversavam
provavelmente sobre algo relacionado a partida. Dentro das quatro
linha, percebi que os jogadores não teriam vida fácil,
o eco da torcida ecoava muito alto e aquilo era a certeza de que
o estádio era um verdadeiro caldeirão. Um dirigente
do clube paraguaio me acompanhou com extrema atenção
até a cabine destinada à imprensa brasileira o que
me provou mais uma vez, que a educação neste país
é algo fora do comum. Enquanto arrumo minhas coisas, o
Santo André sobe ao gramado sob vaias altíssimas
para se aquecer, quando é a vez de surgirem o goleiro Acebal
e seu reserva a torcida se inflama e canta sem para. E com o tempo
passando mais e mais pessoas chegavam ao estádio, surpreendendo
até mesmo a imprensa local.
O
que não é uma rivalidade! Percebi uma falha para
o fechamento completo dos anéis do estádio, e após
a partida um dos torcedores do Santo André soube o porquê
daquele buraco. Trata-se de um terreno que ocupa a área
incompleta do estádio e que faz parte da herança
de uma senhora já falecida. Ela, uma fervorosa torcedora
do Olímpia deixou bem claro em seu testamento: Em hipótese
alguma, nenhuma geração de descendentes que tiverem
o terreno sob seu controle poderá vender a propriedade
ao Cerro. Ele como olimpiana fanática não permitiu
na vida e nem na morte que o clube rival possa termina a construção
de seu estádio. Mas enfim, chega a hora do jogo.
A
partida começa e a torcida fica inflamada, algo que me
arrepiou e que nunca vi nada parecido no Brasil. Para quem pensa
que a Gaviões é algo fora do normal, precisa vir
ao Paraguai. Mais de 30 mil pessoas pulando e gritando de uma
forma singular, que nunca mais esquecerei na minha vida. Mesmo
com o jogo rolando a torcida não pára de chegar
ao estádio e logo percebe-se que foi vendida uma carga
de ingressos superior do que a lotação do Las Ollas.
Pessoas são espremidas em cada centímetro de arquibancada,
chegando em alguns momentos a me fazer pensar no pior. Ali estava
uma bomba relógio, a qualquer momento poderia acontecer
uma tragédia. Do lado de fora, muitos, mas muitos torcedores
mesmo com ingresso na mão, não entraram. Uma lotação
para entrar na história do estádio.
O
Santo André jogava melhor durante todo o primeiro tempo,
mas não chegava ao gol. Pelo lado do Cerro, o único
momento de perigo foi a bola de Ramirez no travessão de
Junior Costa. As rádios locais, ao contrário do
que diziam na véspera - falavam que o time seria presa
fácil, elogiavam o futebol apresentado pelo Ramalhão,
e não demorou muito para aparecer em minha cabine, o repórter
paraguaio Blas Antonio Serafini, da Rádio Primeiro de Março,
querendo saber mais sobre o tal Santo André. No intervalo
da partida entrei ao vivo para todo o Paraguai e disse que tratava-se
de uma equipe muito perigosa e que já calou um Maracanã
lotado. Portanto, não poderiam cantar vitória antes
do tempo.
Mas
aos treze minutos da etapa complementar, Santiago Salcedo, o artilheiro
isolado desta edição da Libertadores, recebeu a
bola após cobrança de escanteio, venceu a marcação
de Fernando e marcou seu oitavo gol na competição.
O estádio veio abaixo. Um barulho ensurdecedor, algo que
só quem presencia sabe o que é. É Libertadores,
uma experiência inesquecível. Ao mesmo tempo, acuados
sob um mar de pessoas, os solitários torcedores do Santo
André viam de um cantinho do estádio seu time ser
derrotado pela segunda vez na competição, curiosamente
como no primeiro, em uma jogada de bola parada. Mesmo jogando
melhor, sofreram o gol. É a típica história
que só o futebol pode explicar.
A
partir deste momento o Santo André tentava achar alguma
saída, mas com a torcida adversária fazendo uma
festa difícil de descrever, ficava evidente que seria difícil
esboçar uma reação, a equipe tentava, mas
o gol querendo ou não, abalou o psicológico da equipe.
Estava provado que nem sempre vence o melhor.Sérgio Soares
comandava a equipe com punhos fortes e ousou sim, ao substituir
Sandro Gaúcho por Rodrigão, Fumagalli por Fernando
e Makanaki por Alexandre - o primeiro antes, e os outros dois
depois do gol - em uma busca mais do que clara não só
pelo gol, mas pela vitória, quem sabe.
Mas
como em Libertadores experiência é um fator preponderante,
o Cerro soube se utilizar dela e usou demais a catimba na reposição
de bola eno trabalho dos gandulas - que de todos, apenas um foi
expulso. A equipe paraguaia se fechou e ao Santo André
só restou atacar. Mas com a retranca os atacantes pouco
fizeram. Quando a partida chegava próxima do fim a torcida
cantava todos os gritos possíveis e imagináveis
sabendo que a vitória e a classificação estavam
consumadas. Era questão de minutos para tudo acabar. No
meio de tudo isso, o problema de superlotação já
não era mais problema, e sim, solução, pois
quanto mais pessoas gritavam, mas o time sabia que a vitória
era uma realidade. O juiz apitou o final da partida e de agora
em diante, o Santo André precisa rezar, e muito, para conseguir
a classificação. A equipe precisar vencer o Táchira
em Santo André e torcer por uma combinação
de resultados. Como no futebol nada é impossível,
vamos esperar para ver.
Enquanto
os jogadores desciam as escadas, comecei uma corrida alucinada
para chegar até o vestiário. Um repórter
local me deu as coordenadas, mesmo sendo um estádio muito
grande, em poucos minutos eu estaria lá. Bastava descer
um elevador, caminhar em um estacionamento e pedir para entrar
no vestiário do Cerro, dali o acesso ao Santo André
seria fácil, mas não foi.
Sou instruído a sair do estádio e pela rua chegar
ao portão dos visitantes, até aí tudo bem,
pois foi nele que entrei no estádio pela primeira vez.
Mas por algum motivo, o mesmo porteiro que me recebeu bem no fim
da tarde, não mas me reconhecia e proibiu a todo custa
minha entrada. Expliquei a ele mais de 10 vezes que era brasileiro
e estava acompanhando a delegação no Paraguai. Chamei
a polícia e também não adiantou. Outro repórter
brasileiro que estava comigo também tentava se explicar
em vão. Após mais de 10 minutos de uma discussão
que chegou a ter berros por ambas as partes, o porteiro encrenqueiro
permitiu a nossa entrada, e para nossa surpresa, as portas do
vestiários eram trancadas pelo Assistente Técnico
do Santo André, o lendário Joaquim Valdir de Moraes
- que nunca havia perdido neste estádio, mas hoje teve
sua sorte despedaçada - anunciando que o clima da equipe
já não era mais o mesmo.
Continua...