Copa do Brasil: Um ano da conquista histórica do Santo André


Há exatamente um ano, mais de 72 mil pessoas viram um pequeno gigante do futebol surgir não só para o cenário nacional, como para o mundo. O até então azarão Santo André vencia o Flamengo por 2 a 0 em pleno estádio Mário Filho, o Maracanã, e conquistava o título mais importante de sua história, a Copa do Brasil.

Conquista da vaga e estréia arrasadora

A equipe conquistou a vaga na competição nacional ao vencer a Copa Estado de São Paulo - atual Copa FPF - em 2003 sobre o Ituano por 4 a 1 no jogo de volta, no mesmo dia em que o mundo parava para ver a prisão do ditador iraquiano Saddam Hussein e a final do mundial interclubes entre Milan x Boca, mal imaginaria que aquele título poderia ser o pontapé inicial do ano mais importante do clube fundado com o nome da cidade que o acolheu, e que leva no peito seu brasão.

Aquilo que seria a príncipio uma participação tímida - afinal era a estréia do Ramalhão na competição nacional - foi virando realidade a cada resultado construído dentro ou fora de casa. A estréia do Santo André não poderia ser melhor: Em 18 de março no estádio Durval Franco, a equipe comandada por Luiz Carlos Ferreira visitava o também estreante Novo Horizonte em Goiás, não tomou conhecimento do adversário e venceu a partida por 5 a 0, eliminando a partida de volta no ABC. O próximo confronto seria menos de uma semana depois, no dia 24 de março pela segunda fase da competição, e marcava a estréia da equipe na competição atuando no estádio Bruno José Daniel. O adversário da vez era o primeiro campeão brasileiro da história. O clube Atlético Mineiro.

Apesar dos desfalques, o sonho amadurece

A partida era dada apenas como um rito de passagem do Galo mineiro às oitavas de final da competição. Mas o que se viu no gramado do Brunão foi a vitória até então surpreendente do Santo André, com destaque para um golaço de falta marcado pelo zagueiro Dedimar. Para a partida de volta a equipe poderia perder por até dois gols de diferença que estaria classificado.

Jogando em casa na noite de 07 de abril, o Atlético pressionou o Santo André a todo custo querendo uma das 16 vagas nas oitavas de final, mas a equipe remendada do Santo André resistiu às investidas do Galo, e consegui a classificação mesmo sofrendo a primeira derrota na competição. Final de jogo, Atlético-MG 2 x 0 Santo André. A vaga nas oitavas estava garantida.

Apenas uma semana e o adversário era o Guarani. A partida do dia 14 de abril seria mais tranquila pelos lados da equipe do ABC se não fosse a debandada de jogadores para outros clubes, pois a boa campanha do Ramalhão despertou a curiosidade de dirigentes que não perderam tempo e fizeram propostas tentadores para vários atletas. E em apenas uma semana o Ramalhão perdia nada menos do que sete atletas do elenco: Cléber Gaúcho, Fumagalli, Cláudio, Edmílson, Alexandre, Vânder e Jean. Mesmo com um elenco reduzido e com o time remendado, o Santo André foi a Campinas e arrancou um empate por 1 a 1 no Brinco de Ouro, com outro golaço de Dedimar. Destaque também para o goleiro Junior Costa - hoje reserva de Júlio César - que defendeu um pênalti cobrado por Viola e garantiu a vantagem do empate sem gols para o jogo de volta no ABC.

Em 5 de Maio na partida de volta, um dos episódios mais bizarros da história do Ramalhão: O técnico Luiz Carlos Ferreira, após o empate feio por 0 a 0 que garantiu a classificação do Santo André às quartas-de-final, saiu do estádio Bruno José Daniel escoltado por dirigentes do Sport-PE que fizeram uma proposta tentadora para o tentador comandar a equipe nordestina. Uma verdadeira perseguição digna de filmes hollywoodianos aconteceu por ruas do ABC, em que os dirigentes do Santo André não aceitavam de forma alguma perder o treinador. Após muita perseguição, localizaram Ferreira em um hotel e receberam um definitivo não como resposta para o pedido de permanencia do técnico no ABC. Com a ida do Rei do acesso ao nordeste, só restava aos dirigentes a busca por um novo treinador em uma fase decisiva da competição, ainda mais por ser o Palmeiras o próximo adversário.

Chamusca, empates e classificação heróica

Outro personagem até então desconhecido aportou no ABC dias depois, e já em 12 de maio comandaria o Santo André na partida de ida das quertas-de-final da Copa do Brasil. O nome dele: Péricles Chamusca, um técnico novato que chegou ao vice -campeonato da mesmo competição em 2002 no comando do polêmico Brasiliense, do senador Luiz Estevão.

A partida contra o Palmeiras era sem dúvidas crucial para ambos os lados. Se passasse pelo Santo André, o time de Parque Antártica espantaria o mal do "Asa" - de Arapiraca, que eliminou o verdão em outra edição da Copa do Brasil - e poderia levar a equipe alvi-verde no caminho mais curto para a Libertadores, após um jejum de 3 anos fora da competição sulamericana. Já ao Santo André, uma vitória sobre um "grande" de São Paulo, daria moral suficiente para que a equipe pensasse definitivamente no título da competição. Em uma partida de toma-lá-da-cá, os torcedores viram seis gols no péssimo gramado do Bruno Daniel e um empate por 3 a 3 - com destaque para o gol de Osmar, quase que do meio campo - que colocava o Palmeiras muito perto da vaga na semi-final. Pois empates por 0 a 0, 1 a 1 ou 2 a 2, dariam a vaga à equipe de Jair Picerni.

O jogo de volta em São Paulo aconteceu em 20 de maio, e os Palmeirenses confiantes com a vaga, e com o apoio da torcida partiu com tudo para eliminar o azarão do ABC, mesmo saindo atrás do placar, a equipe palestrina virou o jogo e até aos 34 minutos do segundo tempo tudo caminhava para uma classificação tranquila, afinal o placar era de 4 a 2 a favor do Palmeiras. Aí a estrela de campeão começou a brilhar. Faltando onze minutos para o final do jogo, Sandro Gaúcho marcava seu segundo gol na partida e o terceiro da equipe no jogo - todos os gols de cabeça - para dar uma sobrevida ao Santo André nos minutos finais, pois um empate por 4 a 4 superaria o resultado obtido pelo Palmeiras no ABC e daria a vaga ao Ramalhão. E aos 45 minutos, quando o estádio estava em silêncio pela tensão e pressão do Santo André, Tássio, um verdadeiro herói da noite, foi oportunista e após uma bola alçada na área de Marcos, foi mais esperto do que todos e marcou o quarto gol de cabeça dos andreenses no jogo. Logo em seguida veio o apito do juiz, levando o Palmeiras a uma crise que culminou na demissão de Picerni, e levou o Santo André - quem diria - às semifinais da competição contra outra surpresa. O XV de Novembro de Campo Bom do Rio Grande do Sul.




Milagres atrás de milagres

Com a vaga assegurada, o Santo André precisou mandar o jogo de ida das semifinais no Pacaembú, já que a CBF não permitia jogos desta fase em estádios com capacidade inferior a 20 mil pessoas. E sob um frio de lascar, pouco mais de 500 torcedores acompanharam o jogo que colocava frente-a-frente as duas supresas da competição: Santo André x XV de Campo Bom. Na outra chave, dois clubes de tradição: Vitória x Flamengo.

O que tinha para ser uma partida equilibrada, tranformou-se em pânico, afinal neste confronto não existia favoritos, mas pela história, o Santo André levaria uma vantagem mesmo que mínima. O que se viu foi um baile da equipe gaúcha, que ao 13 minutos da etapa final fazia 4 a 1 em São Paulo, e praticamente tirava a esperança de uma classificação do Ramalhão. Mas Tássio aos 15 e Osmar aos 24 descontaram no placar e a partida antes era considerada impossível de reversão no jogo de volta, ganhou um fôlego mínimo. Por mais difícil que seja ir para o Sul com um placar de 4 a 3 a favor dos Gaúchos, uma vitória por 2 gols de vantagem colocaria o Santo André na decisão.

E como em um jogo de papéis invertidos, o que o XV fez em São Paulo, o Santo André fez no estádio Olímpico de Porto Alegre na também fria noite de 9 de junho. Um Santo André que não entregaria a grande chance de conquistar um título de expressão tão fácil, dominou a partida e incrivelmente - segundo alguns - venceu por 3 a 1, com um gol salvador de Makanaki aos 18 minutos do segundo tempo e garantiu sua vaga na finalíssima contra o mais popular time do Brasil. O Flamengo.





Bem vindo à América

Assim como na semi-final, o Santo André não pôde mandar o jogo de ida da final contra o Flamengo no ABC. E em 23 de junho, o palco escolhido foi o mesmo que levantou a moral do grupo na partida até então mais imporante do Santo André na competição: O estádio Palestra Itália, mais conhecido como Parque Antártica e casa do eliminado Palmeiras. Mesmo fora do Rio de Janeiro, a torcida do Flamengo era maioria no estádio - cerca de 24 mil flamenguistas, para 6 mil ramalhinos - fizeram os visitantes se sentirem em casa com toda a pressão vinda das arquibancadas, mesmo assim o Santo André não se intimidou e marcou dois gols no rubro-negro carioca com Osmar e Romerito, mas os cariocas não ficaram atrás e com gols de Róger e Athirson - de falta - saíram de São Paulo com o resultado de 2 a 2, e a vantagem de jogar pelos empates sem gols ou por 1 a 1 para levar o título para a Gávea.

Uma semana depois, em 30 de junho, o palco era simplesmente o maior templo do futebol mundial: O estádio Mário Filho, o popular Maracanã, que em clima de "já ganhou" recebia mais de 72 mil flamenguistas, e alguns corajosos andreenses, que pela terra ou pelo ar foram à cidade maravilhosa dar apoio ao time considerado pela grande mídia o virtual vice-campeão da Copa do Brasil. Mas o que se viu nos 90 minutos de jogo serviu para mostrar que nem só a camisa, tradição ou torcida levam um grupo de jogadores a um título. O Santo André entrou em campo humilde, e guerreiro como sua história mostra, superou todas as adversidades e com um gol de cabeça de Sandro Gaúcho aos 7, e uma finalização impecável de Élvis aos 23 - ambas no segundo tempo - o pequenino e improvável campeão Santo André calava todo um estádio e porque não, todo um país que acompanhava uma transmissão fanática e inflamada do narrador mais conhecido do país a favor do Flamengo. Nos pés do zagueiro Ronaldo, o árbitro Carlos Eugênio Simon decretava o final da partida que colocava o Santo André no hall dos grandes campeões e carimbava pela primeira vez o passaporte do Ramalhão para o passo mais largo de sua história, quebrar as barreiras do Brasil, e pela primeira vez em 2005, diputar a Copa Toyota Libertadordes, o campeonato mais importante das Américas.

E assim foi a campanha da equipe que há exatos 12 meses quebrava paradigmas e mostrava que antes de tradição, o amor à camisa - mesmo que sem tradição para alguns - e o profissionalismo levado a sério podem levar equipes a patamares muitas vezes inimagináveis no futebol. E o Santo André de uma vez por todas provou que tudo é possível, basta acreditar!

Ficha técnica

30/06/2004 Flamengo 0 x 2 Santo André

FLAMENGO
Júlio César; Reginaldo Araújo, André Bahia, Fabiano Eller e Roger (Athirson); Da Silva, Douglas Silva (Negreiros), Ibson e Róbson (Jônatas); Felipe e Jean.
Técnico: Abel Braga

SANTO ANDRÉ
Júlio César; Dedimar, Alex e Gabriel; Nelsinho (Da Guia), Dirceu, Ramalho (Ronaldo), Romerito e Élvis (Dodô); Sandro Gaúcho e Osmar.
Técnico: Péricles Chamusca

Local: estádio do Maracanã, no Rio
Juiz: Carlos Eugênio Simon (RS)
Cartões amarelos: Alex, Dirceu e Júlio César (SA); Jean, André Bahia e Fabiano Eller (F)
Gols: Sandro Gaúcho, aos 7min, e Elvis, aos 23min da etapa final
Renda: R$ 1.038.244,00
Público: 71.988 pagantes


Valter Bittencourt

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